sem papel


Minha filha é cega, bjs
Agosto 7, 2008, 6:44 pm
Arquivado em: letras

 

 

Esse mundo é realmente surpreendente (sim, eu adoro usar advérbios e adjetivos juntos); mas eu dizia, a gente vive mesmo é pra ter surpresas.  Eu já tinha lido coisas do Nelson, Vestido de Noiva, pro vestibular e Perdoa-me por me traíres, aleatoriamente. Foram leituras interessantes, mas como eu não passava de um adolescente-que-gostava-de-ler, acho que li muito mal. Fora isso, a gente sempre vê uma coisinha do Nelson aqui e ali… eu e uma amiga até brincamos que a vida é nelsonrodriguiana: João que comia Teresa, que dava pra Raimundo, que trepava ao mesmo tempo com Lili e Joaquim. E todo mundo sabe que isso acontece, mas todo mundo finge que não. Enfim, o Nelson para mim era esse pervertido, esse descarado que falava verdades inconfessáveis.

 

Pois agora vou fazer uma disciplina toda sobre o Nelson, e comecei lendo as memórias que ele escreveu para o Correio da Manhã, durante oitenta dias. A história é mais ou menos assim: uma peça dele foi censurada e ele ficou puto; daí, um editorial dO Globo, jornal no qual ele escrevia uma coluna semanal, ficou do lado do censor e apoiou o veto à peça. O Nelson ficou revoltadíssimo, só que não podia deixar o jornal: ele precisava do salário para pagar o tratamento da filha, Daniela, que nascera cega. Além disso, sair dO Globo podia ser o mesmo que sair da TV Globo. A solução veio com um convite do Correio,  para que ele escrevesse suas memórias, um capítulo por dia. Ele topou.

 

As memórias foram reunidas depois em um livro, o Menina sem estrelas, título que faz referência à cegueira da filha. Bom, mas esse Nelson, o Nelson dessas memórias eu não conhecia. É um sujeito que demonstra um fascínio diante da morte, dos suicidas, da nudez e, também(!!!), diante do amor: para ele não há nada mais pecaminoso do que o sexo, a nudez ou casamento sem amor. Até mesmo o adultério é menos grave do que um relacionamento morno: “Deus me livre da virtude ressentida, da [mulher] fiel sem amor”

 

E a vida dele foi marcada por tragédias –“tenho vontade, vontade mesmo – de me sentar no meio-fio e começar a chorar” - : o assassinato do irmão Roberto, na sua frente, a morte do pai, dias depois, o desabamento da casa do irmão Paulo, que matou a família toda: o irmão, a cunhada, os sobrinhos e a sogra, e o nascimento da filha cega. Aliás, sobre ela , ele escreve:

 

“Dois meses depois, dr. Abreu Fialho passa na minha casa. Viu minha filha, fez todos os exames. Meia hora depois, descemos juntos. Ele estava de carro e eu ia pra TV Rio; ofereceu-se para me levar ao posto 6. No caminho, foi muito delicado, teve muito tato. Sua compaixão era quase imperceptível. Mas disse tudo. Minha filha era cega”

 

e, mais adiante, confessa (em um dos parágrafos mais belos que eu já li nessa minha limitada vida):

 

 “Vou dizer a verdade, toda a verdade. Dr. Abreu Fialho, apesar de toda a cerimônia, de toda a polidez exemplar, não dava uma esperança à minha filha, não concedia hipótese compassiva, nada, nada. Agora vem toda a verdade – eu odiei o dr. Abreu Fialho. Seu nome todo é Sílvio Abreu Fialho. Pois odiei o dr. Sílvio Abreu Fialho. Odiei o oculista que não acreditava em milagre”.

 



Quem fala a verdade?
Agosto 6, 2008, 7:51 pm
Arquivado em: brasil, pensamentos dispersos

 

Na Folha, de hoje: Vale lucra R$ 4,573 bilhões no segundo trimestre, queda de 21,7%

No Estadão: Lucro da Vale sobe 22,3% no 2º trimestre, para US$ 5 bi

 

O “mesmo” dado é apresentado com interpretações totalmente opostas… em um jornal, a empresa tem um crescimento no lucro; no outro, a Vale lucrou menos do que no ano passado. É possível? Sim, é. No caso, a Folha usou um sistema de contabilidade brasileiro, e o Estadão, uma metodologia americana.

Nada de novo, porque nós, sujeitinhos pós-modernos-foucaultianos, sabemos que a verdade não existe assim, solta no mundo.

 

De qualquer forma, hoje ouvi uma frase que há algum tempo eu queria dizer: “o império da verdade parece estar voltando”.  Talvez seja o caso de pensar num pós-pósmodernismo…

—–

e por falar em falar a verdade, que cretina que é a Flora, enganando todo mundo. Olha, fiquei com tanta raiva que nem vou assistir mais, prontofalei.



Comofas
Agosto 3, 2008, 5:11 pm
Arquivado em: ego

Pôxa vida… mas me dá uma agonia do capeta preto ir embora de BH; ainda mais depois de férias tão boas como esta.

Comofas :\



Os jovens que são o futuro do país!
Julho 30, 2008, 7:26 pm
Arquivado em: brasil

Silvio Santos e Jô Soares são os homem mais inteligentes do Brasil. Bem pertinho deles, está o presidente Lula (rá!)- é o que disseram os jovens do Brasil, de acordo com pesquisa realizada pelo Datafolha, que será publicada na Folha de S. Paulo no próximo domingo e que tenta traçar um perfil do brasileiros de 16 a 25 anos. Foram ouvidos cerca de 1500 pessoas, de 168 cidades. No entanto, os jovens brasileiros não querem ser como os inteligentes. Querem mesmo é ser ricos: e, demonstrando um profundo conhecimento da natureza socio-econômica do Brasil, sabem o que dá dinheiro na terra da banana: quando questionados quem eles queriam ser, os nomes mais citados foram Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Ivete Sangalo.

Entre os jovens de Goianésia do Pará, Lula foi mais citado quando lhes perguntaram  “o nome de alguém que seja sinônimo de honestidade”. Como o índice analfabetismo em Goianésia do Pará é três vezes maior do que a média nacional, desconfio que boa parte deles não sabia muito bem o que era um sinônimo. Em todo caso, em Goianésia do Pará há mais jovens que acompanham o noticiário político (22%) do que gente com esgoto tratado (18%); aliás, se eu morasse em Goinésia do Pará, orgalharia-me de ser fedorento, porém bem informado.

Embora o Brasil seja considerado o país do Samba, e alguns discordem que o gosto musical do brasileiro seja um lixo, quase a metade dos jovens brasileiros (48%) citaram (espontaneamente) forró ou pagode como o gênero que mais ouvem. Em Zé Doca (MA), o forró faz ainda mais sucesso: quase sessenta porcento dos jovens de lá disseram que gostam de dar bons rodopios ao lado dos amigos forrozeiros. Coincidência ou não, quase o mesmo percentual dos que não têm acesso à coleta de lixo.

A pesquisa revela, ainda, que os jovens brasileiros estão bem consigo mesmo: 58% se acham lindos. Entre os homens, o numero sobe para 66%. Inexplicavelmente, o número coincide com o índice dos jovens que estão acima do peso, de acordo com Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Ainda que algumas almas maldosas, como Nicolas-Antoine Taunay, tenham encontrado nesse país a gentinha mais desgraçadamente feia do mundo, apenas 4% dos jovens entrevistados se acham realmente feios. De qualquer modo, para quem concorda com o Vinicius e acha que, sim, beleza é fundamental, há uma esperança: 29% dos jovens esperam melhorar sua aparência com uma cirurgia plástica.



Projeto Lamentável
Julho 28, 2008, 12:23 pm
Arquivado em: brasil

Como se não bastasse tudo que já é o Brasil, agora tem mais essa: querem censurar a internet. O projeto de lei de autoria do Eduardo Azeredo (PSDB-MG), sim aquele que foi o inventor do esquema do mensalão, formalmente acusado pelo Procurador Geral da República, prevê  a suspensão dos downloads, o monitoramento de e-mails, o controle das redes wi-fi, entre outras coisas não-democráticas. Mais uma vez, uma proposta paternalista, como se o populacho não fosse capaz de escolher o que é bom pra ele; mais uma vez, o Estado se metendo onde não é chamado - e ainda há gente que tem a cara-de-pau de chamar esse país de neoliberal… ô raça!

Bom, mas enquanto ainda é permitido: há uma petição na internet, contra a censura. Para assiná-la, clique aqui.



Não é que eu seja um purista (besta), mas…
Julho 26, 2008, 9:26 pm
Arquivado em: brasil

Uma vírgula pode fazer toda a diferença: pergunta da Folha: Você acredita em versões extra-oficiais dos fatos históricos que circulam na internet?

 

O que circulam na internet, as “versões extra-oficiais” ou os “fatos históricos”? Fiquei sem saber.

 

 

 



Menos, por favor
Julho 24, 2008, 7:24 pm
Arquivado em: coisas que não mudam a vida de ninguém

 

Poisentão, agora que a Dercy morreu, estão querendo transformá-la em uma “grande atriz”…até o El pais trouxe uma notinha, elogiando-a:

 

“Dercy Gonçalves, una de las actrices más irreverentes del siglo XX, hizo reír a varias generaciones de brasileños desde todos los escenarios, en la televisión y en el cine, donde trabajó en 36 películas. Era un emblema de la espontaneidad y de la franqueza”

 

Emblema de c* é rola, ficadica. Dercy nunca foi nada além dessa velha (desde que eu nasci a Dercy era carcomida, então, pra mim, Dercy sempre foi velha), nunca foi nada além de uma velha que falava palavrões e pronto. Vamos combinar que ela era um tanto quanto fracassada,  todo mundo sabe que ela vivia mendigando um salarinho fixo, depois que a Globo mandou ela ir jogar bingo em outra freguesia. Mas assim, nada contra também – que descanse em paz.

 



Meus bizarros leitores
Julho 22, 2008, 2:31 pm
Arquivado em: ego, homens

 

Ver sexo trans com mulheres e anões. Foi digitando essa frase no Google que alguém visitou o meu blog  – é o que diz o sistema de estatística do WordPress. Resolvi fazer o mesmo: em 0,07 segundos o Google me apresentou 1.150 sites relacionados a ver sexo trans com mulheres e anões. Não me assustei quando vi que apareceram algumas dezenas de sites pornográficos, de sex shops, um artigo sobre um tapa-cofrinho que evita constrangimentos na academia e uma entrada sobre o Acre – coisas esquisitas que se relacionam com o esquisitíssimo ver sexo trans com mulheres e anões. Não, eu não me importo com a sexualidade e com os fetiches (?) de quem quer ver sexo trans com mulheres e anões. Vai saber os desejos que cada um tem. O que me deixa curioso é saber por que diabos meu blog virou uma referência para buscas digamos, insólitas.

 

No caso do ver sexo trans com mulheres e anões, o Google relacionou um texto que eu havia escrito, falando das performances esquizofrênicas do Chris Burden. Deve ter sido frustrante para a pessoa que já estava prontinha pra ver sexo trans com mulheres e anões e de repente deu – pra valorizar o trocadilho – nesse blog. Mas pelo jeito ele(a) não foi o único(a) que procurava sexo e acabou aqui. Três pessoas vieram parar no sempapel procurando edney silvestre “rede globo” gay –oks, deve ser a mesma pessoa, que deve tem uma obsessão pela voz rouca e atraente do Edney Silvestre -; outras 18 digitaram como assumir gay e 7 digitaram o “dona Fátima, seu filho é gay”, que até já foi até título de um post meu aqui.

 

Graças a deus, ninguém ainda veio me perguntar por que eu escrevo esse blog há quase dois anos, pois eu realmente não faço a mínima idéia. Dirão os colegas da Escola de Psicologia da Estácio de Sá: “crise de auto-afirmação, que tem como característica a imposição das verdades pessoais para os demais sujeitos do grupo de convívio”. Falta do quê fazer, aliada a uma enorme vontade de aparecer, diria eu mesmo. Mas mais difícil ainda é saber por que as pessoas continuam a vir aqui, a maior parte delas para discordar das minhas opiniões, sempre muito boas.  Bizarro por bizarro, fico com o sujeito que digitou ver sexo trans com mulheres e anões e que foi, miseravelmente, importunado com o meu blog.  

    



Porquê eu gosto tanto da minha mãe
Julho 21, 2008, 8:57 pm
Arquivado em: ego

 

Eu chego ao quarto da minha mãe e ela está assistindo a Hebe. Eu: poxa, mãe, que decadência….vendo Hebe. Ela: meu filho, é que eu já estou cansada de jornal, é morte,  Satiagraha, Cacciola e ainda por cima Dercy Gonçalves. Eu disparo a rir, meu siso dói e ela completa: Aliás, essa Hebe perdeu a carona, já devia ter ido acompanhar a Dercy.

 

E o pior é que ela é como eu; vê e comenta: quando a Hebe pergunta pro filho do Leandro (do Leandro e Leonardo): você é filho dele?, minha mãe retruca: não, boba, é neto!

 

 



Dos males, o menor
Julho 19, 2008, 8:46 pm
Arquivado em: aforismos, ego

 

Ufa, agora a coisa ficou menos complicada. É que eu tinha um grande medo, um receio de fracasso que só mesmo o destino poderia evitar, eu tinha um medo danado de morrer antes da Dercy Gonçalves. Sei lá, mas dava uma agonia pensar que depois da minha morte essa múmia pudesse continuar por aí, falando idiotisses-que-é-só-o-quê-ela-sabia-fazer, debochando das pessoas normais que, ao contrário dela, costumam viver menos de um século.