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Esse mundo é realmente surpreendente (sim, eu adoro usar advérbios e adjetivos juntos); mas eu dizia, a gente vive mesmo é pra ter surpresas. Eu já tinha lido coisas do Nelson, Vestido de Noiva, pro vestibular e Perdoa-me por me traíres, aleatoriamente. Foram leituras interessantes, mas como eu não passava de um adolescente-que-gostava-de-ler, acho que li muito mal. Fora isso, a gente sempre vê uma coisinha do Nelson aqui e ali… eu e uma amiga até brincamos que a vida é nelsonrodriguiana: João que comia Teresa, que dava pra Raimundo, que trepava ao mesmo tempo com Lili e Joaquim. E todo mundo sabe que isso acontece, mas todo mundo finge que não. Enfim, o Nelson para mim era esse pervertido, esse descarado que falava verdades inconfessáveis.
Pois agora vou fazer uma disciplina toda sobre o Nelson, e comecei lendo as memórias que ele escreveu para o Correio da Manhã, durante oitenta dias. A história é mais ou menos assim: uma peça dele foi censurada e ele ficou puto; daí, um editorial dO Globo, jornal no qual ele escrevia uma coluna semanal, ficou do lado do censor e apoiou o veto à peça. O Nelson ficou revoltadíssimo, só que não podia deixar o jornal: ele precisava do salário para pagar o tratamento da filha, Daniela, que nascera cega. Além disso, sair dO Globo podia ser o mesmo que sair da TV Globo. A solução veio com um convite do Correio, para que ele escrevesse suas memórias, um capítulo por dia. Ele topou.
As memórias foram reunidas depois em um livro, o Menina sem estrelas, título que faz referência à cegueira da filha. Bom, mas esse Nelson, o Nelson dessas memórias eu não conhecia. É um sujeito que demonstra um fascínio diante da morte, dos suicidas, da nudez e, também(!!!), diante do amor: para ele não há nada mais pecaminoso do que o sexo, a nudez ou casamento sem amor. Até mesmo o adultério é menos grave do que um relacionamento morno: “Deus me livre da virtude ressentida, da [mulher] fiel sem amor”
E a vida dele foi marcada por tragédias –“tenho vontade, vontade mesmo – de me sentar no meio-fio e começar a chorar” - : o assassinato do irmão Roberto, na sua frente, a morte do pai, dias depois, o desabamento da casa do irmão Paulo, que matou a família toda: o irmão, a cunhada, os sobrinhos e a sogra, e o nascimento da filha cega. Aliás, sobre ela , ele escreve:
“Dois meses depois, dr. Abreu Fialho passa na minha casa. Viu minha filha, fez todos os exames. Meia hora depois, descemos juntos. Ele estava de carro e eu ia pra TV Rio; ofereceu-se para me levar ao posto 6. No caminho, foi muito delicado, teve muito tato. Sua compaixão era quase imperceptível. Mas disse tudo. Minha filha era cega”
e, mais adiante, confessa (em um dos parágrafos mais belos que eu já li nessa minha limitada vida):
“Vou dizer a verdade, toda a verdade. Dr. Abreu Fialho, apesar de toda a cerimônia, de toda a polidez exemplar, não dava uma esperança à minha filha, não concedia hipótese compassiva, nada, nada. Agora vem toda a verdade – eu odiei o dr. Abreu Fialho. Seu nome todo é Sílvio Abreu Fialho. Pois odiei o dr. Sílvio Abreu Fialho. Odiei o oculista que não acreditava em milagre”.




