sem papel


Notas sobre Osvaldo
Novembro 8, 2009, 1:52 am
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Oswald de Andrade nunca pareceu interessante para mim. Por causa de um preconceito. É que eu, como se existisse uma rivalidade excludente, achava o Mário e o Drummond os mais interessantes dos nossos Andrades-modernistas. Acho que talvez a preferência se deva à presença de um certo sentimento íntimo na poesia desses dois em contraposição ao humorismo racional do Oswald. Ou talvez porque minha apreciação estética se funda na dialética entre a minha posição ideológica reacionária e uma aceitação de que a boa arte é inevitavelmente revolucionária – não consigo discordar de Chklovski quando ele plasma o efeito estético como um “estranhamento”. No entanto, a literatura oswaldiana me incomodava por essa vontade a tudo custo de parecer revolucionária. Explico, Oswald se afigurava para mim, como um autor exageradamente modernista, no sentido de aplicação de cacoetes para envidenciar-se como moderno. Daí os trocadilhos insustentáveis:

na sala violeta de Monsieur Violet ( Memórias sentimentais de João Miramar).

a Serra dos Órgãos serrava ( idem).

Carlos Florêncio – grande poeta inédito falecido na flor da idade. ( Serafim Ponte Grande ).

Isso para não citar uma profusão de neologismos idiotas. Esses procedimentos tornam os textos do Oswald datados, muito presos ao momento daquele “futurismo ciclóplico”, que autor já considerava superado no seu Manifesto Pau Brasil. E é preciso apontar um outro ponto do meu não interesse por Oswald: visto de longe, ele me parecia um cantor de uma nota só, com uma excassez de tópicas que não o deixava ir além da dessacralização (da arte, da pátria) e da sátira à nossa elite caipira. Por oposição, Mário, graças ao sentimento íntimo de que falei mais acima, sempre me pareceu produzir uma literatura menos fugaz e, por isso mesmo, mais honesta: “Seria insincero comigo mesmo, se mais que a minha expressão, procurasse a orientação de escolas”, escreve ele em Carta a Manuel Bandeira (23/abr/1923). Não há como negar a grandeza de alguém que escreve algo como “O poeta come amendoim”, poema muito mais moderno do que modernista.

Mas como literatura pode até ser comparada, mas não é competição, estou tendo a oportunidade de descobrir o Oswald, deixando um pouco de lado meus preconceitos e as minhas visadas gerais para partir pro corpo a corpo com o texto oswaldiano. Tenho que reconhecer que há muito pouco de ingenuidade num livro como o Miramar . Se há momentos extremamente desnecessários, como já apontei, o romance é sobretudo síntese e economia, como no anúncio da morte da mãe do protagonista que é limitado a uma locução adjetiva:

sentaram-me num automóvel de pêsames

Há também neologismos bem sucedidos:

E o sertão para lá eldorava sempres e liberdades.

Aqui, Oswald atinge o máximo do seu procedimento neológico – não se trata da técnica pela técnica, mas da neologia associada ao lirismo, ao sentimento íntimo, que eu julgava ausente da sua poética. Boa escola de poesia para um Guimarães Rosa ou, talvez mais próximo pelo gosto aforismático, para um Manoel de Barros.


Até mesmo no humorismo oswaldiano tenho achado ótimos momentos de pura sensibilidade, sem que isso prejudique o fundo racional da sátira:

medo da senhora

A escrava pegou a filhinha nascida
Nas costas
E se atirou no Paraíba
Para que a criança não fosse maltratada


E a capacidade ímpar na nossa literatura de trabalhar o título, deslocando-o do contexto apropriado. Como nos famosos ready-mades linguisticos de Pau Brasil, nos quais, através da titulação, o autor subverte o texto citado (geralmente da literatura dos viajantes expansionistas). Impagável a conhecida apropriação da Carta de Caminha, por meio da qual Oswald expõe a posição pilantra dos nossos “descobridores”. Nossas índias dessacralizam-se e se tornam prostitutas da gare, esperando novos clientes.

meninas da gare

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabeçalhos mui pretos pelas espadoas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito olharmos
Não tinhamos nenhuma vergonha.

Eis aí o ponto alto oswaldiano, cume atingido só pelos melhores artistas de vanguarda: emprego de um procedimento ultra-modernista, i.e., a apropriação quase Duchampiana de um objeto (trecho da Carta), ressignificando-o pelo título, sem destituir a sátira do sentimento íntimo que nos faz sentir compaixão por essas indiazinhas depiladas.



“Estou tecnicamente morto”
Novembro 5, 2009, 9:54 pm
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A tristeza da minha vida ultimamente tem sido olhar para uma parede da minha casa e achá-la pelada. É que fiz algumas mudanças e agora sinto falta de algo pra ocupar o espaço. Queria, na verdade, um pôster enorme do Vinicius ou da Estamira, mas não acho imagens em alta resolução. Uma aporrinhação.

Mas eu sou tão atualizado que só hoje fui aprender com meus alunos que Crepúsculo é um filme de vampiros(!). Uma aporrinhação.



Ney me mata
Novembro 1, 2009, 9:42 pm
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O Ney não tem mesmo jeito: como se não bastasse o inacreditável Inclassificáveis, que quase me matou do coração, agora ele aparece com o Beijo Bandido.

Estou à beira de uma síncope com a versão dele para “Mulher sem razão”. (E o disco ainda tem “Medo de amar”, minha música ever).



estrangeirar-me
Outubro 29, 2009, 10:38 pm
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Hoje estava vendo uma parte da novela em que aparecia mulheres no saguão de um hotel. Me dei conta de que uma viagem por agora não seria nada mal. É que estou sentindo saudades disso: de muvuca de hostel, de levantar pra pegar o horário do café e voltar a dormir, de ter medo de perder a chave do quarto. A Nanda tem me dito do aniversário dela que se aproxima e que seria uma ótima oportunidade pra ir ao Rio. É algo a se pensar, mesmo porque não apareço por lá desde fevereiro. O problema é que novembro já está comprometido com BH.

O que eu queria dizer: o que mais quero, o de que preciso é me sentir estrangeiro.



Chore um bocadinho e se esqueça de mim
Outubro 27, 2009, 11:19 pm
Arquivado em: artes

Hoje minha vó, que veio passar uns dias aqui em casa, me pediu pra colocar uma “musiquinha de violão” pra ela ouvir, enquanto pegava no sono. Disse que estava sentindo falta de música. Me fez lembrar da rapariga dos óculos escuros, do Ensaio sobre a cegueira , que me comoveu muitíssimo quando pediu, como se fosse o seu último desejo, que deixassem o radinho de pilha do manicômio numa estação que tocasse um pouquinho de música.

Isso tudo me faz pensar na necessidade biológica da arte ou, pelo menos, da experiência da arte.
————-

E pra quem perguntou: o texto da imagem de cabeçalho é estrofe viniciana: “você bota muita banca, infelizmente não sou jornal”. E Maribeth saindo saltitante do palco.



Outubro 25, 2009, 6:03 pm
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Pois aí está mesmo a diferença entre uma Maribeth e uma Ana Carolina. A interpretação da Ana me lembra eu na oitava série, recitando (!) “A banda”, do Chico.


Mas eu gosto da Ana. Ela tem muito a dizer.



O mundo como ficção
Outubro 22, 2009, 6:10 am
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Mas não tenho vontade de representar outras pessoas. Quero ser outras pessoas

"Mas não tenho vontade de representar outras pessoas. Quero ser outras pessoas

Há muito tempo que a piauí não vem tão boa, como a desse mês. Parece até que guardaram os textos para essa edição, que é comemorativa do terceiro aniversário – aliás, é uma maravilha ver que a piauí completa três anos. Assim como esse blog, achei que ela não fosse durar.

Pois além do texto do Vargas Llosa que eu comentei recentemente, há uma reportagem do David Grann , sobre um francês, Frédéric Bourdin, conhecido como “O camaleão”, que assume várias identidades. Bourdin, de 35 anos, já foi preso várias vezes depois de enganar um batalhão de gente, se passando por adolescentes de 15, 16 anos. O caso mais inverossímil é aquele em que Bourdin, depois de ser preso, recebeu um últimato de uma juiza: ele tinha 24 horas para provar que era um adolescente e não Frédéric Bourdin. E assim ele fez: disse que era um garoto norte-americano que havia sido sequestrado pouco tempo antes, no Texas. Acreditaram nele. Não só os juizes, como a família do garoto sequestrado. Inclusive a mãe. Levaram-no para casa. Pouco importava que ele não falasse o inglês texano, ou que tivesse olhos castanhos, e não azuis como os do menino desaparecido. A família queria acreditar que seu garoto estava de volta. E essa crença foi tudo.

O mais surpreendente dessa história é que ela é um reprodução praticamente literal de um conto de Borges, “El impostor inverossímil Tom Castro”, incluído na Historia Universal de la infamia”. No texto borgiano, um impostor, Tom Castro, também se passa por um filho de uma senhora rica, desaparecido após um naufrágio. Como a mãe não acreditava na morte do filho, ela logo reconheceu no falsário o seu garoto. E pouco importava que eles não fossem nem um pouco parecidos. Afinal, se Tom Castro fosse um impostor, trataria logo de imitar o jovem desaparecido para enganar a família: “Sus partidarios no cesaban de repetir que no era un impostor, ya que de haberlo sido hubiera procurado remedar los retratos juveniles de su modelo.”

O que eu queria dizer: que toda a literatura de Borges segue a máxima mallarmaica: “tudo existe para acabar num livro”. Borges extendeu a ideia, formulando a hipótese de que talvez o mundo seja um livro, de que vivamos numa grande biblioteca. Ora, a história de Bourdin é a metáfora da metáfora. Não é a ficção da realidade, pois de fato ele existe. É a realidade como ficção.



Não me esqueço de Nana
Outubro 17, 2009, 11:30 am
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Um mundo sem literatura, ai de nós!
Outubro 15, 2009, 11:39 pm
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Na piauí desse mês há um texto de Vargas Llosa que é quase um manifesto contra o pouco prestígio da literatura em nosso tempo. Não há muito de novidade no texto, só o já conhecido resmungo contra um mundo em que há cada vez menos espaço para o livro impresso. Lembro de ter lido alguém, acho que o Deleuze, comentando que chegamos a um tempo em que ler um romance é o mesmo que ouvir uma música: não é mais necessário dedicar-se à leitura, mas tolera-se que ela seja feita com certo grau de distração. Ai, de nós.

Pois dirão os pós-modernos que o manifesto vargasllosiano é conservador, na medida em que elege os cânones como sinônimo de Literatura e esta como ideal de intelectualidade. Ou ainda: que se trata de uma visão idealista do objeto literário. Mas que se danem as pessoas-com-visão-crítica. A vida tem me mostrado o qual “incivilizadas, bárbaras, pobres de palavra e [sobretudo] órfãs de sensibilidade” são as pessoas que não leem.

Minha mãe costuma me perguntar o que faço quando não tenho respostas para as coisas, se penso em deus. Talvez a literatura me seja isso, a figuração mais primitiva que alguém pode ter dela: uma espécie de busca de respostas. Por isso, incomoda-me muitíssimo a insensibilidade a um texto. Ou por outra: as pessoas não são amigas o suficiente porque talvez nunca tenham lido Camus ou Cervantes, ou a estória de Lélio e Lina. Não amam, de fato, porque desconhecem Riobaldo e Diadorim. Vi de relance essa semana uma revista que trazia na capa a foto de Paulo de Coelho segurando o Kindle. Letras gigantescas diziam mais o menos assim: “O último livro que você vai comprar. Chega ao Brasil o aparelho que vai substituir os livros de papel. Espanta-me a falta de interesse pelo livro físico. Espanta-me quem consegue passar sem estar lendo um livro. Espanta-me a falta de amor. Só uma pessoa plenamente órfã de sensibilidade pode desprezar o amor táctil proporcionado por um livro, como dizia o Caetano.

——

Em defesa do romance
Mário Vargas Llosa

Um casal que leu Proust usufrui mais do amor e do sexo que os analfabetos semi-idiotizados pela tevê.

(…)


De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exa-gero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão. Em um mundo iletrado, o amor e a fruição não poderiam ser diferenciados daqueles que satisfazem os animais, não iriam além da mera satisfação dos instintos elementares: copular e devorar.
(…)


A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com o modo como vivem a vida. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa é um modo astuto que inventamos para nos mitigar pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a sermos sempre os mesmos, enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.


Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão literária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real.

Texto completo.



Minas gerais não cabe num final de semana
Outubro 13, 2009, 7:22 pm
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Decolei, cheguei, dancei, bebi, beijei, conheci, liguei, contei, comprei, subi morro, desci morro, subi outro morro, andei, andamos, andei, procuramos, nos perdemos, achamos, acampamos, foguerei, bebi, bebemos, dormi abraçadinho, comemos, gargalhei, cachoeiramos, descobri, me apaixonei, subimos, subamos!, me sujei, marquei, praçadaliberdadeamos, revivi, reconsiderei, recepcionei, soprei balão, revi quem me faltava, ganhei um dom quixote, abracei…

Êta vida de saudades, meu deus.