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Bem, mas a questã é que caiu na graça do povão: todo mundo ama Clarice Lispector – viados principalmente, vai entender. Depois da missa, não se comenta outra coisa. É Clarice pra lá, é GH de cá, é uma menina falando de Macabea, ali. Nada contra modismos. Aliás, eu adoro modismos. Quanto mais tendência, melhor. Sou daqueles: leio só porque tá na moda. Parei de gostar de sorvete de morango depois que me falaram que era demodê – e nem lembro a explicação que me deram.

Acho super válido as pessoas saírem por aí citando Clarice. Eu também cito um monte de gente que nunca li. Se me perguntam o que acho sobre determinada coisa, e eu não entendo bulhufas sobre essa determinada coisa, digo:

Olha, a verdade, já dizia Spinoza (aí, faço uma pausa e levanto meu dedinho indicador – pra impressionar meu interlocutor), a verdade é que “as coisas nos parecem absurdas ou más porque delas temos um conhecimento parcial,e nós somos completamente ignorantes quanto à ordem e à coerência da natureza como um todo.”

Não dá outra: todo mundo fica me olhando, admirando a minha ponderação, minha sabedoria. Em alguns casos, só pra ouvir a materialidade do meu triunfo sobre as almas débeis, acrescento no final da citação um é ou num é?. E todos: é.

E basta dar uma rodadinha báásica pelo orkut pra ver uns belos profiles cults com passagens clariceanas. Num sei que lá, num sei que lá fecha aspas, Clarice Lispector. Viver é bibibibibi, Clarice Lispector. É bom ter Clarice no profile, indica que você um ser reflexivo.

Mas o interessante é observar as variações. Bem, pois lá está num profile:

A perfeição
(Clarice Lispector)

O que me tranqüiliza é que tudo o que existe,existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetroalém do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existecom (SIC) essa exatidãonos (SIC) é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,a perfeição.

Achei tão interessante isso. Transformaram uma passagem em prosa, em um poema. Bem, mas a passagem original diz isso:

“é que tudo o que existia, existia com uma precisão absoluta e no fundo o que ela terminasse por fazer ou não fazer não escaparia dessa precisão; aquilo que fosse do tamanho da cabeça de um alfinete, não transbordava nenhuma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete: tudo o que existia era de uma grande perfeição. Só que a maioria do que existia com tal perfeição era, tecnicamente, invisível: a verdade, clara e exata em si própria, já vinha vaga e quase insensível à mulher. “

Vejam a diferença de um pro outro. E REFLITÃOOM! Sabe, fico até pensando em fazer uma pesquisinha sobre essas citações que acabam indo pro povão, descontextualizadas. Poderia até escrever um título bonito pro meu texto: Vicissitudes literárias e mass media – uma aproximação. E, claro, procuraria um bela citação de Bourdieu sobre a influência dos canais midiáticos nos bens culturais e simbólicos pra servir de epígrafe.