Estamira ou a beira do mundo
Publicado; novembro 3, 2008 Filed under: artes | Tags: cinema, documentário, Estamira, filosofia 4 Comments »
Eu já tinha ouvido falar muito dela, mas só coisa de um mês atrás que eu vi: Estamira. Um documentário (absurdamente bem) dirigido pelo Marcos Prado sobre uma catadora de lixo, no RJ. Mais do que uma mendiga, Estamira é uma feiticeira, que revela verdades ao mundo. Ela tem uma teoria toda particular sobre o mundo, sobre o estar-no-mundo e sobre o ser-para-o-mundo. Claro, ela é louca. Mas na loucura dela, há muito de realidade. Afinal, como ela mesmo diz: “tudo que é imaginado tem, existe, é”.
Basicamente, o mundo de Estamira é esse: existem duas entidades divinas: os astros superiores positivos e os negativos. Ela é representante – “em ropa sanguina” – dos astros positivos, do cometa. Contra ela, está o Trocadilo, divindade que faz sempre o mal: ele possui o controle-remoto-superior, que é uma força que ataca o corpo dela. “O Trocadilo é tão maldoso, que se mete com a minha carne sanguina”, ou seja, por não poder eliminar o espírito de Estamira – que é a beira do mundo e está em todo lugar – ele se mete com a sua parte matéria. É o Trocadilo também que deixou o mundo esse caos que a gente conhece muito bem.
A verdade é que, desde que vi, virou um vício: volta e meia me pego vendo uma cena ou outra. E para minha satisfação, todos os amigos a quem eu mostrei também viraram fã. Mais que isso, também viraram seguidores de Estamira. Aliás, não há como não virar: além da “inteligência” da feiticeira, há o belíssimo trabalho de fotografia e edição, que torna o filme quase tão impagável quanto ela.
Frases de Estamira:
“A minha missão é ensinar o que eles não sabem: os inocentes. Aliás, não tem mais inocente. Tem é esperto-ao-contrário”.
“A culpa é do hipócrita, mentiroso, esperto-ao-contrário, que atira a pedra e esconde a mão”
“Que deus é esse? Quem anda com deus, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria?”
“Eu sou ruim, mas não sou perversa. Ruim, não perversa. E não vou deixar de ser ruim”
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Uma coisa interessante que Estamira diz é que: “O homem é o único condicional”. Quanto à sua negação da existência de Deus, mas reconhecendo a existência de uma entidade metafísica do mal (“trocadilo”), é um paradoxo. Deus, segundo ela, é uma criação dos homens. E o ‘trocadilo’, quem o terá criado?
[...] não me canso de falar da Estamira, eu sei. Parece até monomania. Mas é que também não me canso de constatar a riqueza do [...]
Estamira é um documentário impressionante e um apelo social fantástico, mas principalmente, um alerta de que na loucura também pode existir sabedoria:
“Isso aqui é um depósito dos restos. Às vezes é só resto e às vezes vem também descuido. Resto e descuido.” (Falando sobre o lixão); “Miséria, não, mas as regras, sim! Economizar as coisas é maravilhoso, porque quem economiza tem.”; “A culpa é… do hipócrita que joga a pedra e esconde a mão.”; “Quem anda com Deus noite e dia, dia e noite na boca… largou de morrer?”; “Vocês não aprendem na escola, vocês copiam. Vocês aprendem é com as ocorrências.”; “Isso aqui é escravos disfarçados de libertados. A Isabel, ela soltou eles, e não deu emprego pros escravos…”; “Deus, quem fez Deus foi os homens.”; “Sabia que tudo que é imaginado existe e é e tem? Pois é.”
Eu sou suspeita, porque sou espiritualista. Creio que a “normalidade” é uma condição social de “igualdade”. Quem está fora dos padrões é considerado doente. Sinceramente, pra mim, alguns casos de desequilíbrio mental, senão a maioria, podem facilmente ser ocasionados por problemas psíquicos e Estamira, na minha opinião, é um desses casos. Há um momento em que ela claramente está perdida entre os mundos físico e astral, quando ela diz que o cometa e a lua não estão no alto espaço, mas somente o seu reflexo. Que na verdade eles estão aqui. Sua mente supraconsciente está em contato com a mente consciente sem nenhuma censura e ela diz, desesperada, a si mesma: “Mantenha o controle.” É óbvio que os cientistas e médicos dirão é pura loucura. Eu assisti ao filme por indicação de um livro chamado “Cinema e Loucura”, que cita Estamira como um exemplo de esquizofrenia no cinema.
Sem medo de parecer tão louca quanto Estamira, ouso dizer que concordo com ela: trocadilo é hipócrita e fez os homens piores que os quadrúpedes. Estamira está em todo lugar e ninguém pode viver sem Estamira! Ninguém! Todos devem assistir ao filme.
Os alunos de uma escola publica de minas gerais assistiram o depoimento de dona Estamira. E gostaria de corresponder com dona Estamira . Para quem agente envia as correspodencias?
Se possível me envie o endereço pelo franjac2006@yahoo.com.br
Desde já agradeço
Professor Francisco