A favela me despreza
Publicado; março 12, 2009 Filed under: aforismos, brasil, ego 1 Comment » 
SOCORRAM-ME SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS. Está tudo ao contrário: eu, uma pessoa que se considera um anti-onguista conservador, fui pra favela fazer trabalho voluntário. Comecei hoje a experiência de dar aulas de literatura em um cursinho pré-vestibular comunitário.
Achei tudo muito diferente. Primeiro porque a favela não era exatamente uma favela. Esperava encontrar ruas sem calçamento, casas de pau-a-pique, escadarias sem fim, crianças catarrentas, crianças desnutridas, traficantes empunhando fuzis, esgoto a céu aberto, cachorros sarnentos, bocas de fumo, tiroteios, gente fumando maconha e gente cheirando cocaína, gente descolorindo o pelo da perna na calçada, gente dançando funk na porta de casa, gente vendendo churrasquinho de gato e gente comendo churrasquinho de gato com farinha, mosquitos da dengue, mosquitos da malária, focos de tétano, encostas prestes a desabar, córregos prestes a transbordar. Mas não: encontrei ruas relativamente asseadas, com asfalto e até mesmo, creiam-me, senhores, cestos de lixo. Mas deparei-me, sobretudo, com ruas desertas. Não se via viv’alma sobre aquelas vastas solidões. Evidente, passou-me pela cabeça a ideia de que eu poderia ser surpreendido por um marginal a qualquer momento, como um naturalista que é subitamente atacado por um animal que o vigia no silêncio da selva. Mas não: ninguém demonstrou interesse pela minha carne. Minha presença ali não foi capaz de alterar a apatia do lugar. As circunstâncias me obrigaram a reconhecer que eu havia sido miseravelmente ignorado pela favela.
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A aula, por sua vez, foi bem mais agitada: os alunos possuem um grau significativo de letramento e, a despeito de não saberem identificar a diferença entre conotação e denotação, fizeram questão de anunciar (sem eu perguntar) que sabiam o que era um “verso branco”.




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