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Roth: se a vida é uma só, a eternidade tem que ser idêntica ao que já se viveu.
Desde que me entendo por gente, nunca tive paciência para a cultura americana. E isso nada tem a ver com repulsa, pois não sou um anti-americanista, como toda boa pessoa-com-visão-crítica. Não se trata de aversão, mas de preguiça cultural. Talvez por isso eu tenha protelado por muito tempo ler ficção norte-americana – verdade seja dita, li um pocket book de contos do F. Scott Fitzgerald há algum tempo, mas achei tudo muito patético: Fitzgerald me faz concordar com Caetano quando ele diz que americanos têm gestos nítidos e sorrisos límpidos, olhos de brilho penetrante que vão fundo no que olham, mas não no próprio fundo.
Essa semana precisei comprar uns livros na internet e para aproveitar o frete grátis e a promoção de lançamento comprei o novo do Philip Roth, Indignação . Ontem, estava precisando tanto de lua nova, que peguei o tal livro, já disposto a largá-lo após algumas páginas e esquecê-lo para sempre na estante. Minha surpresa: não só não fiquei feliz enquanto não terminei, como achei o romance surpreendente. Mas que isso: é o melhor texto que eu já li da ficção pós-80s. Trata-se de um romance histórico, narrado em primeira pessoa por um jovem, de uma família de classe média e judia, que, em busca da independência, se muda de Nova Jersey, para Ohio, onde se matricula numa conservadora universidade. Ora, nada mais banal: jovens costumam se distanciar 1000 quilômetros de casa em busca de autonomia em relação aos pais (eis-me aqui, como exemplo), como se “ser independente” legitimasse uma existência. Há, no entanto, no enredo de Roth, algumas particularidades: a fábula se passa no início da década de 1950, quando os EUA estavam em plena Guerra da Coreia. E essa nota histórica é tudo: como diz um personagem de Indignação, “A história não é pano de fundo – a História é o palco”. Para o protagonista as forças históricas são assim mesmo, imperativas : estar na universidade é a única chance de não ser convocado para guerra; e ser um combatente norte-americano naquele momento significava lutar contra milícias comunista suicidas que haviam provocado incontáveis baixas nos adversários. Permanecer na universidade é também uma espécie de sacrifício, pois trata-se de uma instituição ultra-conservadora, típica do meio-Oeste estudosunidense: caipira e imbecil.
Nada de novo até aí: Roth se vale do enredo arquetípico do jovem pequeno burguês no limiar dos movimentos de contracultura que surgiram ao longo do mundo a partir da década de 1950. Um jovem que se vê num momento histórico que a geração de Philip Roth costuma designar como privilegiado, quando a vontade de autonomia de uma juventude entra em conflito com a moralidade conservadora do Estado, da Religião e da Família. O livro é maior do que tudo isso, porém. A voz narrativa, a certa altura do romance, se denuncia como um defunto narrador: ele morrera aos 19 anos e tudo que tínhamos lido até então era, na verdade, uma fala de alguém “lá no outro mundo”, como diria Brás Cubas. É aí que o livro se torna a grandiosidade que é: não por ter sido enunciado por um defunto, que isso em nada acrescentaria se Roth não tivesse usado esse motivo para propor uma teoria da eternidade. E a eternidade, aqui, não é o fim, nem o começo de uma nova experiência espiritual no céu ou no inferno, mas um eterno olhar para a sua própria vida:
Será que a eternidade serve para isso, para que meditemos sobre as minúcias de toda uma vida? Quem poderia imaginar que teríamos de relembrar para sempre cada momento da vida até seu mais ínfimo pormenor? Ou será que essa é apenas a minha vida após a morte, e, se toda vida é unica assim também será cada vida após a morte, cada qual uma impressão digital de uma vida após a morte diferente da de qualquer outra pessoa? Não sei dizer. Tal como na vida, só sei o que é, e na morte o que é vem a ser o que era.
Não importa que, ao anunciar que morreria pouco tempo depois da sua ida para a universidade, o narrador torne previsível o final do livro, que inevitamente teria que coincidir com a sua morte. Não importa também que a causa da morte seja ainda mais previsível: o leitor não é frustrado quando espera que a cena final seja justamente esse jovem sangrando num front da guerra, depois de ter sido expulso da universidade por rebeldia. O que importa é que Roth cria, através dessa fábula histórica pra lá de banal, uma alegoria da própria literatura. Afinal, o que é um narrador em primeira pessoa senão um morto-vivo, eternamente preso dentro de um livro, eternamente condenado a relembrar sua própria vida toda vez que alguém se dispuser a ler sua fala?
Mas que não seja só um romance metalinguístico ou esteticista: trata-se de um olhar no próprio fundo da cultura norte-americana. Os diálogos entre o protagonista e o diretor da universidade são emblemáticos: mostram o quão insuportáveis são os americanos, sejam eles jovens “revolucionários” ou velhos conservadores. Ainda em tempo: o romance retrata a idiotice de uma cultura que precisa se segmentar em guetos: o jovem-narrador não tem escolha, para sobreviver na universidade deve entrar pra o grêmio dos judeus, assim como os negros entraram para o grêmio dos negros, etc, etc.e assim, ganham-se, barganham-se, perdem-se, concedem-se, conquistam-se direitos. Ou para além disso: que democracia é essa em que jovens vão estudar porque têm medo de morrer? que povo é esse que não consegue nem mesmo sobreviver às previsibilidades da História?
Uma conclusão paulocoelhana: como as certezas são restritivas! Pois eu coloquei na minha cabeça um plano para 2010-11 e, agora que surgiram possibilidades que o ameaçam, dei-me conta do quão ideia fixa eu estava sendo. E o que é pior: estava não me deixando encontrar, o que é a coisa mais triste que alguém pode fazer com a sua própria vida. O fato é que, agora, pretendo voltar ao reino da dúvida. Quero estar anterior a fronteiras pois o que eu mais quero, o de que preciso é de lua nova.
Hoje eu acordei meio Marie Laforêt e estou mesmo achando que on ne sait jamais jusqu’où ira l’amour…
Ainda sobre a História do medo no Ocidente: o Delumeau faz um inventário da iconografia da arte em tempos de peste que é imperdível, sobretudo quando mostra os arquétipos que se repetem nessa arte, como a flecha, para simbolizar a epidemia que surpreende e fere rapidamente, a dança em círculo, como metáfora da morte que envolve toda uma comunidade. A citação de autores e imagens é extensa. O problema é que eu comprei a edição de Bolso que, infelizmente, não contém imagens. Foi aí que me lembrei de uma dica do Jorge Coli: o Web Gallery of Art, que é um site criado por uns estudantes da Hungria, com um acervo impagável – e o que é melhor: a qualidade das imagens é assustadora. Fui, então, lendo o livro e pesquisando as imagens no site e supri, assim, a pobreza da minha edição.
Foi através procedimento, aliás, que eu descobri uma imagem que o Delumeau não cita: busquei por plague e achei uma tela (acima) de um pintor chamado Hieronymus Bosch. Não conhecia nada dele e continuo não sabendo mais do que vi por lá e do que a Wikipedia me ensinou. O que me chamou atenção, no entanto, foi a recorrência dos homens-com-cara-de-rato, peixes-navios, mulheres-com-cara-de-porco, etc. Fiquei pensando no quão fechadas são essas alegorias – claro, só se pode entender essas imagens como alegóricas -, a tão ponto que são de difíceis reconstrução hoje. Mesmo assim, ainda prefiro elas, do que as não-metáforas surrealistas, como os cavalos e relógios derretidos de Dalí (por quem, aliás, não tenho um pingo de interesse).
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E o mais interessante desse post ficou nos parêntesis: estava procurando o vídeo do Francis comentando sobre a morte do Dalí pra colocar o link e não achei. Mas revi outros impagáveis dele :
[Francis:]Eu acho que as pessoas devem ter o direito de ter armas…
[Caio:] O direito à vida é mais importante do que ter armas…
[Francis:]Iiiiiiiih, se você disser mais um clichê desse, eu vou ter uma síncope, aqui!
E a melhor: “A maior prova de sobrevivência biológica do ser humano é que ele consiga sobreviver a essa montanha infinita de lixo que é a cultura pop“. Traduziu o porquê de eu achar que quem gosta de rock é vagabundo.

Lula no Conselho dos Direitos Humanos da ONU: para ele o Brasil é um paradigma capaz de explicar qualquer questão geopolítica ao redor mundo. A gente é que complica.
Brilhantes as declarações do Lula sobre a eleição do Ahmadinejad. Para esse nosso presidente-semi-alfabetizado, é “impossível (sic) que alguém consiga manipular 30% dos votos. Nem no Brasil, nos Estados em que a gente sabia há um tempo que tinha mais eleitor do que população, era possível fazer essa manipulação.”
Para Lula, o Brasil é a medida de leitura do mundo. A nossa sociedade é, na cabeça desse nosso presidente-pau-de-arara, capaz de gerar uma complexidade suficiente para explicar qualquer situação econômica ou geopolítica no mundo inteiro. Por isso, se aqui não é possível ter fraude com essa margem escandalosa, por que lá seria? Aliás, o massacre de dezenas de opositores que protestavam contra a fraude não deve ser levado muito a sério. Afinal, já conhecemos bem essa história, essa briga “é apenas, sabe, [como] uma coisa entre flamenguistas e vascaínos” . E como já estamos acostumados a ver o populacho morrendo com as porretadas que alguns levam nos estádios, por que deveríamos nos preocupar com esse jogão de bola no Irã? Que Direitos Humanos o quê, companheiros…briga é coisa de futebol, acontece…sobra só o espetáculo!
Para esse nosso presidente-que-não-sabia-de-nada, a oposição reprimida violentamente, não tem motivos pra reclamar, pois,”não é o primeiro país que tem uma eleição na qual alguém ganha e quem perde faz protesto. No Brasil, isso está virando moda. As pessoas que ganham as eleições perdem na Justiça e a oposição toma posse”. É igual final de campeonato, companheiros, quem perde sempre reclama… mas isso é coisa de futebol, acontece…sobra só o espetáculo!
Agora que descobriram irregularidades em mais de 50 zonas eleitorais, duvido que Lula mude de opinião. Duvido que ele seja a favor de uma (necessária) intervenção internacional no Irã. Esse nosso presidente-chefe-de-uma-gangue-sindical-formalmente-acusada-pelo-Procurador-da-República, sabe que, mesmo em copa do mundo, o juiz pode errar, pô…isso é coisa de futebol, acontece…sobra só o espetáculo!
Na História do medo no ocidente, do Delumeau, encontrei algo que me impressionou muitíssimo, sobre a relação do homem e seus cadáveres:
[Em tempos de peste] O próximo é perigoso sobretudo se flecha da peste já o atingiu: então, ou é encerrado em sua casa, ou então enviado às pressas para algum lazareto situado fora dos muros da cidade. (…) Desse modo, as relações humanas são totalmente conturbadas: é no momento em que a necessidade dos outros se faz mais imperiosa – e em que, de hábito, eles se encarregavam dos cuidados – que se abandonam os doentes. O tempo de peste é o da solidão forçada.(…) No curso habitual das coisas, dá-se um jeito de camuflar o aspecto horrível da morte graças a um cenário e à cerimônia, que são uma espécie de maquiagem. O defunto conserva sua responsabilidade. Ele é a ocasião de uma espécie de culto. Em período de peste, ao contrário, considerando-se a crença nos eflúvios maléficos, o importante é livrar-se dos cadáveres depressa.
e mais adiante:
Para os vivos é uma tragédia o abandono dos ritos apaziguadores que em tempo normal acompanham a partida deste mundo. Quando a morte é assim desmascarada, “indecente”, dessacralizada, a esse ponto coletiva, anônima e repulsiva, toda a população corre o risco do desespero ou da loucura, sendo subitamente privada das liturgias seculares que até ali lhe conferiam nas provações dignidade, segurança e identidade.
Isso é de uma compreensão imperdível do que é o homem. A falta de um cadáver para decidir pelo fim é, de fato, o princípio da loucura. Eu que o diga.
Quase morri vendo essa semana o Espaço Aberto Literatura em homenagem ao Borges. É que eu não sabia que existiam imagens tão íntimas do Borges e fiquei impactado com ele na biblioteca, já praticamente cego, tateando os livros…
E também na Globo News, adorei a entrevista do Lucas Mendes com Ben Ratliff, um especialista em jazz, ou como disse o Lucas, alguém que conhece mais de música brasileira do que 99% dos brasileiros. “A música, para ser conceitualmente boa, tem que desafiar o público” é uma frase sem tirar nem por. E eu me lembrei de um comentário que ouvi logo no primeiro ano de faculdade, num fórum sobre o papel das artes e humanidades na universidade brasileira, comentário do qual nunca me esqueci (infelizmente não me lembro o autor): “a música tem que dizer algo ao público, senão vira só barulho e barulho é sempre irritante”.
E ontem, antes de dormir, eu gritei de rir e acordei o prédio inteiro, provavelmente: É que a Heloísa Perissé disse no Jô que parou de comer chocolate porque ela não conseguia comer uma barra só. E que não respeita e odeia aquelas pessoas que, cretinamente, conseguem comprar um chocolate, comer um tablete, guardar o resto na bolsa e esquecer o chocolate lá. Me identifiquei.
E agora mais essa dos Atos Institucionais Secretos no Senado. Impressionante como há umas múmias que estão sempre envolvidas em escândalos mas continuam lá. Onde tem Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney só pode haver falcatrua. Aliás, José Sarney tinha que ser PRESO só pelos péssimos livros que escreveu (que, graças a deus, não li e não gostei).
Ô raça!
De Clarissa pra Clarice: na faxina-pra-receber-visita decidi mudar a Clarice de lugar. Foi quando ela me mandou abrir A hora da estrela e ler a dedicatória que ela escreveu lá. Eu quase morri. Depois de citar um monte de gente (Chopin, Bach, Beethoven…), Clarice resume tudo num comentário: [dedico esse livro] a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu. Isso é de matar, viu. A melhor descrição do efeito estético que já vi até agora; aqueles que, como eu, entendem a arte como visceral, como único jeito de aturar a vida, hão de concordar. Estou explodindo em dois pontos eu.
Cobertor de orelhas: Já dizia Adoniran, deus dá o frio conforme o cobertor. Pois num é que às vezes, num dia frio como esses, chega um edredom providencial na vida gente?!
Fernanda Drummond, mulher-espelho: Estava com medo porque achava que a Fernanda, por causa de divergência literárias, estava com ódio de mim. O que seria uma perda irremediável pra minha vida. É que Fernanda, apesar dos pesares, é das que mais me entendem, por ser como eu, embora sejamos diferentes. Possuímos o espanto viniciano diante de quem fica brincando com a vida. A vida não permite o futuro e, como disse Fernanda, a vida não é traquinas. Por isso, mais uma vez me vem à cabeça a diferenciação entre medo e audácia, da Agustina. Aliás, estou lendo História do medo no Ocidente, do Delumeau e ele cita um comentário do Descartes que é impagável: O medo ou pavor, que é contrário à audácia, não é apenas uma frieza, mas também uma perturbação e um espanto da alma que lhe tiram o poder de resistir aos males que ela pensa estarem próximos [...] Desse modo, não é uma paixão particular; é apenas um excesso de covardia, de assombro e de temor, o qual é sempre vicioso.
Morte-súbita: às vezes fico com um certo medo de ter um piripaque e morrer por causa da saudade que sinto do Thales e da Keka.
Menos, menos: È impressão minha ou isso aqui virou um blog/twitter-confessional-adolescente?
Hoje acordei meio Clarissa Dalloway e decidi que eu mesmo vou comprar as flores. É que logo mais eu vou receber visita e preciso vencer a preguiça e ir ao mercado – minha geladeira só tem água, ovo e yakut.







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