Tempos de Peste

Triunfo da Morte, P. Bruegel

Triunfo da Morte, P. Bruegel

Na História do medo no ocidente, do Delumeau, encontrei algo que me impressionou muitíssimo, sobre a relação do homem e seus cadáveres:

[Em tempos de peste] O próximo é perigoso sobretudo se flecha da peste já o atingiu: então, ou é encerrado em sua casa, ou então enviado às pressas para algum lazareto situado fora dos muros da cidade. (…) Desse modo, as relações humanas são totalmente conturbadas: é no momento em que a necessidade dos outros se faz mais imperiosa – e em que, de hábito, eles se encarregavam dos cuidados – que se abandonam os doentes. O tempo de peste é o da solidão forçada.(…) No curso habitual das coisas, dá-se um jeito de camuflar o aspecto horrível da morte graças a um cenário e à cerimônia, que são uma espécie de maquiagem. O defunto conserva sua responsabilidade. Ele é a ocasião de uma espécie de culto. Em período de peste, ao contrário, considerando-se a crença nos eflúvios maléficos, o importante é livrar-se dos cadáveres depressa.

e mais adiante:

Para os vivos é uma tragédia o abandono dos ritos apaziguadores que em tempo normal acompanham a partida deste mundo. Quando a morte é assim desmascarada, “indecente”, dessacralizada, a esse ponto coletiva, anônima e repulsiva, toda a população corre o risco do desespero ou da loucura, sendo subitamente privada das liturgias seculares que até ali lhe conferiam nas provações dignidade, segurança e identidade.

Isso é de uma compreensão imperdível do que é o homem. A falta de um cadáver para decidir pelo fim é, de fato, o princípio da loucura. Eu que o diga.



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