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Vejam só como são as coisas: quando estourou o escândalo do Mensalão, em 2005, Lula tratou logo de separar-se do PT, dizendo que o partido precisava “cortar na carne” e separar as “laranjas podres das boas”. O populacho acreditou que ele nada tinha a ver com os dólares na cueca, com o carro que Silvio Pereira ganhou de uma empresa prestadora de serviços para a Petrobrás, com os Delúbios, com os Zés Dirceus e Genuinos. O presidente foi à TV para pedir desculpas e dizer que havia sido “traído” pelo PT e que ele, pobre coitado, não sabia de nada. Era como se ele sofresse da síndrome do analfabeto enganado por espertalhões. Lula era só uma pessoa que confiava demais nas pessoas.
O mesmo aconteceu quando, em plena campanha eleitoral de 2006, alguns dirigentes petistas foram descobertos com alguns milhões, que seriam usados para comprar um dossiê contra José Serra. Lula logo tratou de se afastar do escândalo e disse que aquilo era coisa de “aloprados”.
Por essas e outras, o presidente sempre figurou no imaginário do povão como alguém bastante honesto, mas que infelizmente estava cercado de pilantras. O PT sempre foi o problema de Lula, acreditavam alguns.
Se há algum de bom nessa crise do Senado é o fato dela colocar as coisas em pratos limpos. A insistência do presidente Lula em apoiar Sarney, mesmo depois das incontestáveis provas de coronelismo e nepotismo por parte do senador, mostram que Lula é a laranja mais podre do PT. O que se viu essa semana foi exemplar, o presidente, em várias oportunidades, apareceu achincalhando o seu partido. Depois de aguentar o quanto pôde, Aloizio Mercadante, líder do PT no Senado, divulgou nota, pedindo o afastamento de Sarney da presidência. Lula não perdeu tempo: saiu em defesa de Sarney e desmentiu a nota de Mercadante, dizendo que ela não refletia a opinião do PT. Ora, ninguém mais acredita que o PT é o reduto da ética, mas o que esse escândalo mostra é que Lula representa a ala mais pilantra do partido. O presidente é o símbolo do que há de mais retrógrado e escuso na política: o deixa-disso. Mais que isso: é um misto de líder de gangue sindical combinado com o mais baixo fisiologismo, mistura que resulta em algo pior do que o sarneyzismo.
Falei há algum tempo aqui que não queria ler romance por pelo menos um mês. A promessa durou menos de quinze dias: é que não resisti quando vi o Ensaio sobre a cegueira numa livraria com 50% de desconto. Estava querendo ler o livro desde o lançamento do filme do Fernando Meirelles, ainda mais depois que vi Saramago chorando ao vê-lo. Mas também não queria assistir ao filme sem ler o livro antes.
Sou suspeito para falar porque Saramago é um tipo de literatura que me pertuba bastante: aquela do E se…, E se… Portugal se descolasse da península ibérica, E se…ninguém mais morresse, E se… Jesus não fosse cristão. A hipótese que move Ensaio sobre a cegueira talvez não seja o E se todos ficassem cegos de uma pra outra, mas o E se já formos cegos, mesmo vendo…
Interessa-me nessa literatura-do-E-se a posição daquele que pergunta. Ora, não somos cegos e não há possibilidade de assim ficarmos por meio de uma epidemia. Então, aquele que nos oferece esse futuro hipotético – que é também uma interpretação sobre o presente – deve nos responder o que acontecerá(ria) depois do E se… A resposta, inevitavelmente, trai a própria pergunta na medida em que cataloga o futuro, descrevendo-o. Perguntas e respostas como essas só podem ser respondidas por uma entidade supra-humana, ou qualquer outra que não viva sob o paradigma temporal do presente versus futuro, qualquer outra que viva a Eternidade, porque a Eternidade não tem começo nem fim. Aquele que é capaz de tal pergunta é como o deus que, entendiado, se questiona “E se… eu criasse um universo e o povoasse de seres vivos, alguns deles à minha imagem e semelhança?”. Mas esse deus, no momento exato da pergunta, já vê o universo criado e aquilo que nós, homens, chamamos de futuro, mas que na verdade existe na mesma matéria do passado. (O subjuntivo talvez não exista no idioma da Eternidade).
No caso de Ensaio sobre a cegueira , como aliás nos outros que li de Saramago, o narrador (talvez seja o caso de chamá-lo de autor-implicado) é esse deus que brinca com o E se…, cegando os homens, colocando-os nas mais imbecis e degradantes situações. E, conhecedor da biografia de cada personagem, finge de humano para poder usar o termo “destino”:
“Agora, estando toda gente cega, parece fácil dar por mal empregado o dinheiro que se gastou, afinal há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”.
Ninguém mais sínico do que esse narrador que, depois de ter feito gato e sapato dos seus personagens, fala de “rodeio do destino”, quando na verdade, já havia um projeto kafkiano de jogar os atores nas situações mais vexatórias. E se assim o faz é porque esse narrador-deus (ou autor-implicado, que é mesmo o termo mais correto pra esse deus nos bastidores) é, sobretudo, um divino medroso, ou o diabo evergonhado: não é capaz de assumir a sua prórpria obra. (Aliás, não será esse o fardo de toda entidade divina que não assume que o erro, o pecado e a cegueira são frutos da sua obra “perfeita”? Não será o deus cristão um grande narrador, que envergonhado de ter permitido tantas mazelas, acusa os homens de cegos pecadores?). O narrador-deus de Saramago, no entanto, é tão fracote que não cega a todos, deixa uma única mulher a ver, para que ele não seja obrigado a assumir o risco de ser o único que vê na terra de cegos. (Aqui, o deus cristão parece ser menos frouxo). E a pobre mulher, coitada, que desconhece a existência desse narrador-que-vê, é obrigada a sofrer a angústia de ter olhos quando todos já cegaram. Sofre o mal de se acreditar a única que vê, quando a visão não é mais uma característica humana. Pra quê ver quando não se pode ser visto?, perguntará a mulher várias vezes.
Mas a vantagem(?) de se ler Saramago é que ele, como todo deus, sempre oferece uma Verdade. E é isso que torna seus livros tão cheio de afirmações que valem uma vida:
“Cala-te, disse a mulher do médico, calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida”.
Ou:
“dentro de nós há uma coisa que não tem nome, esta coisa é o que somos”.
Ou:
“A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.
Quem me dera poder dizer tudo com lágrimas e não me cegar nunca por causa da falta de fé.
Hoje eu fui a uma banca-de-jornais e vi um mendigo-de-muletas comprando uma revista pornográfica por R$1,60. Me fez pensar nas fomes de cada um.
1)Das coisas que eu vejo e NÃO me espanto:

Lula sobre os seus novos amigos, Renan Calheiros e Collor: "Eu quero aqui fazer Justiça ao comportamento do senador Collor e do senador Renan, que têm dado uma sustentação muito grande aos trabalhos do governo no Senado.".
2) Por falar em não-espanto: Romero Jucá como relator de uma CPI (da Petrobrás) é coisa que só se vê por aqui.
3) No Editorial da Folha de hoje, um comentário imperdível: “As ideologias de 40 anos atrás refletiam, bem ou mal, as aspirações de uma classe média em conflito com um país atrasado, agrário e bacharelesco. Hoje, o atraso mudou de nome, endereço e classe social. A UNE se preocupa com carteirinhas e com a participação do capital estrangeiro nas universidades privadas. No país de Sarney e de Lula, a liderança estudantil poderia ser um pouco menos velha do que isso. Ao menos para variar.
Youtube não presta mesmo, facto. Não se acha por lá Diana Krall cantando “I’ve got you under my skin”, que é a música feita para mim essa semana. A versão da Diana é acachapante: muito mais honesta à letra do que as outras, como a do Sinatra. Acho que é porque a voz do Sinatra e os arranjos que ele colocava nas músicas eram por demais alegres . E “I’ve got you under my skin” vive no tempo da agonia. Ai, de nós.
Aliás, foi através dessa música que eu fiquei tendo notícia da Diana. Foi na novela do Manoel Carlos, vejam só vocês; quando ouvi aquela voz, interpretando Cole Porter num violão e arranjos bossanovistas, decidi que precisava daquela mulher na minha vida. Mas só agora estou entendendo o significado da metáfora da letra, esse jeito intravenoso de amar. Ai, de nós.
“Pois que dedico esta coisa aí ao antigo Schumann e a sua doce Clara que são hoje ossos, ai de nós.” (C. L.)
Tentei prestar um favor ao mundo e colocar a música no youtube, mas o vídeo foi imediatamente retirado do ar, por questões de direitos autorais. Ai, de nós.
I’ve Got You Under My Skin
(Cole Porter)
I’ve got you under my skin
I have got you deep in the heart of me
So deep in my heart, you’re really a part of me
And I’ve got you under my skin
I have tried so, not to give in
I’ve said to myself this affair it never would go so well
But why should I try to resist when I know so well
That I’ve got you under my skin
I would sacrifice anything come what might
For the sake of having you near
In spite of a warning voice, that comes in the night and
repeats
in my ear
Don’t you know you fool you never can win
Use your mentality, wake up to reality
For each time I do, just the thought of you makes me stop
before
I begin
Because I’ve got you under my skin

Aprendi a falar português só por causa do pinto.
Revirando uns armários despovoados aqui de casa, achei várias memórias familiares: ao lado do meu diploma do pré (nunca me recuperei dessa tragédia: eu errei a minha assinatura e entrei em depressão-infantil; não me conformava com o fato de que o meu diploma seria o único da classe a ficar rasurado), mas ao lado desse diplominha rabiscado, encontrei um vídeo de um churrasco de família, no distante ano de 1991, no qual eu apareço dançando Michael Jackson. Agora, quero aproveitar que ele morreu, para colocar o vídeo no youtube e, quem sabe, ficar famoso. Só preciso de alguém que digitalize isso pra mim.
E contam que eu custei a aprender a falar a língua portuguesa: aos três anos, embora fosse um garotinho bem articulado num idioma que eu inventara pra mim, não falava mais do que “papã” e “mamã”. O resto eram palavras incompreensíveis. Pelo menos para os adultos, porque tenho certeza de que meus animais de estimação me entendiam bastante. Não me lembro dessa língua-inventada, nem desse tempo, mas sempre tive fama de um garotinho bochechudo que falava e cantava muito, embora no seu próprio idioma. Os esforços para que eu reproduzisse algo em português, mostram os vídeos, eram em vão: as músicas da Xuxa eram instantaneamente traduzidas por mim para minha língua. Segundo minha mãe, a primeira frase que eu pronunciei em português (ou em algo próximo disso) foi resultado do sentimento de propriedade. Um dia, um dos meus animaizinhos sumiu. Era um pintinho desses que antigamente se comprava em qualquer pet-shop, quando esse tipo de comércio ainda se chamava “loja de ração”. Acho que tudo tem uma origem: o fato é que saí desesperado pela casa, chorando e perguntando, num esboço de português: “puacaso ocê viu meu pintinho piano pu aí?” . Inconscientemente, eu devo ter percebido que era hora de me fazer entender, de falar a língua dos adultos para re-encontrar aquilo que eu procurava. O medo de perder o pinto, talvez, tenha sido minha primeira puberdade.

Em Belo Horizonte há a Rua do Amendoim. Trata-se de uma ladeira. Mas nela, os carros, contrariando a lei da gravidade, sobem ao invés de descerem. Isso mesmo: quem é de BH sabe porque todo pai já levou seus filhos lá e é só desligar o carro, deixá-lo no ponto morto (é essa marcha mesmo?) que ele sobe sozinho.
Ainda criança, vi, acho que no Gugu, a explicação física para o caso: é que a Rua do Amendoim embora seja, visualmente, uma ladeira “para cima” está sedimentada num grande declive. Ou seja: a se confiar no físico-do-Gugu e na minha memória, a explicação mais certa é a de que vemos o carro subindo sozinho, mas nao percebemos que o sub-solo é, na verdade, uma enorme descida.
Hoje, graças ao Thales, percebi que minha vida também pode ser uma Rua do Amendoim, ainda que às avessas: a gente acha que está descendo e está é subindo – no ponto morto.






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