Saramago e deus

Falei há algum tempo aqui que não queria ler romance por pelo menos um mês. A promessa durou menos de quinze dias: é que não resisti quando vi o Ensaio sobre a cegueira numa livraria com 50% de desconto. Estava querendo ler o livro desde o lançamento do filme do Fernando Meirelles, ainda mais depois que vi Saramago chorando ao vê-lo. Mas também não queria assistir ao filme sem ler o livro antes.


Sou suspeito para falar porque Saramago é um tipo de literatura que me pertuba bastante: aquela do E se…, E se… a península ibérica se desligasse da Europa, E se…ninguém mais morresse, E se… Jesus não fosse cristão. A hipótese que move Ensaio sobre a cegueira talvez não seja o E se todos ficassem cegos de uma pra outra, mas o E se já formos cegos, mesmo vendo…


Interessa-me nessa literatura-do-E-se a posição daquele que pergunta. Ora, não somos cegos e não há possibilidade de assim ficarmos por meio de uma epidemia. Então, aquele que nos oferece esse futuro hipotético – que é também uma interpretação sobre o presente – deve nos responder o que acontecerá(ria) depois do E se… A resposta, inevitavelmente, trai a própria pergunta na medida em que cataloga o futuro, descrevendo-o. Perguntas e respostas como essas só podem ser respondidas por uma entidade supra-humana, ou qualquer outra que não viva sob o paradigma temporal do presente versus futuro, qualquer outra que viva a Eternidade, porque a Eternidade não tem começo nem fim. Aquele que é capaz de tal pergunta é como o deus que, entendiado, se questiona “E se… eu criasse um universo e o povoasse de seres vivos, alguns deles à minha imagem e semelhança?”. Mas esse deus, no momento exato da pergunta, já vê o universo criado e aquilo que nós, homens, chamamos de futuro, mas que na verdade existe na mesma matéria do passado. (O subjuntivo talvez não exista no idioma da Eternidade).


No caso de Ensaio sobre a cegueira , como aliás nos outros que li de Saramago, o narrador (talvez seja o caso de chamá-lo de autor-implicado) é esse deus que brinca com o E se…, cegando os homens, colocando-os nas mais imbecis e degradantes situações. E, conhecedor da biografia de cada personagem, finge de humano para poder usar o termo “destino”:


“Agora, estando toda gente cega, parece fácil dar por mal empregado o dinheiro que se gastou, afinal há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”.


Ninguém mais sínico do que esse narrador que, depois de ter feito gato e sapato dos seus personagens, fala de “rodeio do destino”, quando na verdade, já havia um projeto kafkiano de jogar os atores nas situações mais vexatórias. E se assim o faz é porque esse narrador-deus (ou autor-implicado, que é mesmo o termo mais correto pra esse deus nos bastidores) é, sobretudo, um divino medroso, ou o diabo evergonhado: não é capaz de assumir a sua prórpria obra. (Aliás, não será esse o fardo de toda entidade divina que não assume que o erro, o pecado e a cegueira são frutos da sua obra “perfeita”? Não será o deus cristão um grande narrador, que envergonhado de ter permitido tantas mazelas, acusa os homens de cegos pecadores?). O narrador-deus de Saramago, no entanto, é tão fracote que não cega a todos, deixa uma única mulher a ver, para que ele não seja obrigado a assumir o risco de ser o único que vê na terra de cegos. (Aqui, o deus cristão parece ser menos frouxo). E a pobre mulher, coitada, que desconhece a existência desse narrador-que-vê, é obrigada a sofrer a angústia de ter olhos quando todos já cegaram. Sofre o mal de se acreditar a única que vê, quando a visão não é mais uma característica humana. Pra quê ver quando não se pode ser visto?, perguntará a mulher várias vezes.


Mas a vantagem(?) de se ler Saramago é que ele, como todo deus, sempre oferece uma Verdade. E é isso que torna seus livros tão cheio de afirmações que valem uma vida:


“Cala-te, disse a mulher do médico, calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida”.


Ou:


“dentro de nós há uma coisa que não tem nome, esta coisa é o que somos”.



Ou:

“A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”

Quem me dera poder dizer tudo com lágrimas e não me cegar nunca por causa da falta de fé.



Um Comentário on “Saramago e deus”

  1. [...] me matava aqui. por rafael martins da costa categoriasaforismos Ai de nós artes brasil coisas que não [...]


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