Estamira e a psiquiatria

Eu não me canso de falar da Estamira, eu sei. Parece até monomania. Mas é que também não me canso de constatar a riqueza do pensamento estamiriano. Hoje, saiu no Estadão uma entrevista com Elizabeth Roudinesco, historiadora da psicanálise, sobre a obra de Freud. Quando perguntada sobre o status da psiquiatria atualmente, ela respondeu:

Hoje não há mais psiquiatria. E, logo, nos damos conta de que existem cada vez mais loucos. Porque são usados apenas medicamentos, ela não funciona mais. É útil, mas não resolve. É muito interessante o que se passou na psiquiatria. Biologizaram-na. Até então, era um equivalente da psicanálise. Era uma medicina da alma. Mas a deslocaram para a biologia. Curamos a loucura? Não. Acalmamos os loucos? Sim. Vivemos um recuo de 50 anos com a psiquiatria “biologizada”.

Parece até uma paráfrase das palavras de Estamira:

Presta atenção nisso: eu conheço médico, médico, médico, médico, médico…Eles estão sabe fazendo o quê? Dopando quem quer que seja com um (!) só remédio. Não pode. O remédio, quer saber mais que Estamira? Presta atenção: o remédio é o seguinte: se fez bem, para. Dá um tempo. Se fez mal, vai lá e reclama. (…) O tal do Diazepan, então…Se eu beber diazepan, se eu sou louca, visivelmente, naturalmente, eu fico mais louca. Entendeu agora?

O impagável: que uma pessoa não-curada tenha a capacidade de ser mais coerente do que a psiquiatria: estranho mundo esse em que os remédios não curam, apenas adiam o mal até a próxima dose.



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