Sofro como Nina, ai de mim.

A psicologia da classe média é mesmo digna de estudo: pois que comprei uma LCD aqui pra minha casa paulista e estou todo feliz com ela. Se pudesse, ficava, assim, o dia todo só por conta de ver os canais-que-sempre-tive, como se a programação tivesse se alterado só porque a tv é novinha. O cheiro de plástico novo é dos melhores prazeres produzidos pela civilização.

O que eu queria dizer: é que por causa da LCD comprei um box com DVDs da Nina e da Ella Fitzgerald. Na verdade, o que eu queria mesmo é ter em casa o vídeo da Nina cantando “Feelings”. O que mais me comove nessa interpretação  é a briga dela com a letra da canção. Ela diz: “que droga ter que cantar uma música como essa…eu não acredito nas condições que produziram essa letra”.É de uma grandeza sem tamanho. Talvez por isso Nina me comova tanto: porque não canta apenas palavras, mas elabora todo um ritual de respeito e entendimento do que está proferindo.

Como ela, sofro por ter que cantar uma letra como “Feelings”, sofro por ter que reconhecer que essa música me explica inexoravelmente. Ai de mim.



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