O triste legado de Marina

Outdoor do pastor Silas Malafaia, veiculado durante as eleições de 2010.


Marina Silva foi a grande surpresa dessa eleição, tudo mundo sabe. Com um partido relativamente pequeno, que lhe rendeu pouco tempo na TV, foi capaz de quebrar o plebiscito já antigo e desgastado entre PSDB e PT. Marina soube arregimentar os votos de ex-petistas, decepcionados com o rumo do partido, além claro de quem esperava mais firmeza oposicionista de José Serra. Além disso, a candidata do PV também foi considerada a alternativa progressista, representante do que há de mais novo na política, que ela mesmo auto-definiu como “a política do século 21″. Boa parte dos seus votos veio de viados e gente que pensa um pouco mais.

Campanha de Serra defenderá "valores cristãos". Isso significa também um "não" ao casamento gay?

Mas não só: Marina também recebeu votos de uma parcela significativa do eleitorado evangélico e moralmente conservador. Se teremos o segundo turno, a causa se deve em grande medida dos votos dos conservadores que Marina conseguiu retirar de Dilma, após a candidata petista se envolver numa polêmica contra o aborto. A verde também desde o princípio se colocou contra o casamento gay e a criminalização da homofobia.

Em busca do apoio dos evangélicos, Dilma disse, em declaração publicada pela Folha de SP (07/10/10), ser contra a criminalização da homofobia.

 

Nesse começo de segundo turno, Marina tem produzido um efeito triste: tanto Serra quanto Dilma se tornaram mais conservadores do que já eram, em busca dos votos dos que defendem “a moral e a família”. É de dar medo. Nessa última semana, os dois candidatos se reuniram com líderes religiosos e não hesitaram em se dizerem contra a legalização do aborto e contra a aprovação da lei que torna a homofobia um crime. Não precisamos de que Dilma ou Serra se sentem à mesa com esses representantes da moral e da família. Precisamos, de fato, de uma nova política, realmente comprometida com os novos paradigmas, que sem dúvida passam pela desidiotização de uma certa moralidade. A eleição deveria servir justamente para esclarecer a sociedade, mostrar que se quisermos realmente deixar de ser uma republiqueta das bananas devemos abraçar de vez a democracia, permitindo a todos os direitos civis. O legado de Marina, infelizmente, não foi colocar em cena uma política do século 21, mas trazer o que há de mais arcaico na política do século passado – que está no cerne de regimes totalitários como o nazismo: a defesa de valores morais como justificativa para a perseguição dos pecadores.



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