Quantas vezes eu já não tive a vontade de me refugiar num bar e pronunciar a palavra desespero

Um dos problemas de estudar literatura e fazer dela sua profissão é que se acaba lendo muitas coisas que, a rigor, não precisariam ser lidas. E isso talvez aconteça mais vezes quando se decide estudar a literatura contemporânea: como há uma enormidade de pessoas escrevendo atualmente, como em nenhum outro momento da história, a lista dos autores e textos que se tem pra ler é soberba. Não creio que a literatura contemporânea seja pior ou melhor do que a de épocas passadas. Mas ao se ler muitos autores, mesmo quando escolhemos o filtro (duvidoso) dos que já foram premiados e reconhecidos, termina-se por encontrar obras medianas, ou mesmo sem relevãncia.

Talvez por isso os grandes impactos, as grandes experiências estéticas sejam tão raras e ocorram por acaso. Salvo engano, em 2010, por exemplo, o único texto, de um autor até então inédito para mim, que fez meus olhos realmente brilharem foi o 2666, do Roberto Bolaño. Não que tenha lido muitos livros ruins. Ao contrário: li coisas boas. Mas o Bolaño me deu a impressão de uma maturidade literária insuspeitada, até então. E acho que a experiência estética, pelo menos para mim, decorre exatamente dessa impressão.

O acaso, como eu disse, pode sim produzir grandes descobertas literárias. Há alguns dias, entrei em uma das poucas livrarias de Belo Horizonte – há por aqui muitas lojas de livros, mas raríssimas livrarias -, e descobri uma promoção da CosacNaify. Comprei A viagem vertical, do espanhol Enrique Vila-Matas. O livro é acachapante – desde o primeiro parágrafo. Tenho muito medo de obras assim, pois, acaba-se a leitura e permanecem os ecos que vão interferindo no diário da gente. Eu que já tenho me sentido muito distante do mundo que aí está posto, fico um pouco preocupado quando aparece um livro  - ou uma música – que, por conta de algum mecanismo indecifrável, retira as certezas e dilata tempo e espaço. A comparação é imperfeita, como só podem ser as comparações, mas me parecem muito semelhantes os efeitos de uma obra assim e da maconha. No fim, fica a sensação de estar conversando com as pessoas, lutando para parecer normal, lutando para voltar a um registro cotidiano, pragmático, prático. Mas nem sempre dá certo. É um estranhamento muito grande.  Ainda mais quando os mandarins do mundo parecem ser invencíveis, quando já se tem a certeza de que não há mesmo espaço para poetas na cidade.

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Abaixo, o primeiro período de A viagem vertical.

 

“Quando a noite caiu em pleno dia sobre Barcelona e o temporal de chuva e vento se desencadeou, Federico Mayol, que há uma semana estava à beira do abismo e naquela tarde vagabundeava, não teve outro remédio além de refugiar-se num bar da praça Letamendi, pronunciando a palavra desespero.”

 


Um Comentário on “Quantas vezes eu já não tive a vontade de me refugiar num bar e pronunciar a palavra desespero”

  1. Tati Marchi disse:

    Rafa,
    você vem algum dia pras campinas?
    dessa vez, prometo a mim mesma não furar.
    saudade.


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