“E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia”
Publicado; março 4, 2010 Filed under: Ai de nós, ego, Literatura 1 Comment »Já disse e vou repetir: se tenho alguma sorte na vida é ler as coisas quando mais preciso delas. Pois que lá vem Clarice:
Mas olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia . Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não entendemos porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
(Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, grifos meus.)
E fico pensando se haverá descrição melhor do que somos nós hoje: “falar no que realmente importa é considerado uma gafe”.
Ai que tédio
Publicado; fevereiro 16, 2010 Filed under: Ai de nós, Literatura 1 Comment »Pensei em escrever um texto sobre o Desonra, do J.M. Coetzee, pra falar que o livro me impactou porque trata, sobretudo, da história de um homem rodeado por livros, intelectualizado, mas incapaz de usar a literatura a seu favor, digamos. Pensei em escrever um texto para mostrar que o protagonista é um fracassado, alguém que leu muito, mas que pouco aprendeu com suas leituras. É um contra-argumento ao manifesto do Vargas Llosa, que comentei aqui, no qual ele defende o romance e a literatura como o instrumento de sensibilização e de entendimento do estar no mundo.
O problema é que o herói de Coetzee é um literato, alguém envolvido diretamente com as artes, mas nem por isso deixa de ser um “órfão de sensibilidade”, para usar a expressão do Vargas Llosa. Pensei em escrever uma espécie de mea culpa, porque também perdi muito tempo da minha vida não-aprendendo com a literatura. Ai de mim. E, por isso mesmo, tenho cada vez mais pena dos leitores que não aprendem nada da humanidade com o que leem.
Mas escrever um texto sobre isso seria totalmente desgastante. Ai que tédio.
A hora do sim é o descuido do não
Publicado; fevereiro 3, 2010 Filed under: Ai de nós, Literatura 3 Comments »Outro dia, li uma coisa para a qual nunca tinha me atentado: se o universo é constituído de milhares e milhares de estrelas e corpos que emitem luz, por que o vemos como um manto negro coberto com alguns pontinhos de luminosos? Não era pra vermos um só clarão único?
A resposta é que, apesar de existirem bilhões de corpos luminosos, a luz que eles emitem não consegue chegar até nossos olhos porque eles se afastam da Terra com uma velocidade muito superior à velocidade da luz. (Ai desses astros, que ao se afastarem perdem sua razão de ser, já que estrela só foi feita mesmo pra terminar no olho de um homem).
Fiquei pensando se essa não é a melhor metáfora para se descrever as relações que cravamos diariamente, se no final das contas o que há é um monte de gente se dispersando numa velocidade maior do que a capacidade que a vida tem de fazer encontrar. Ai de nós que nem chegaremos a ver tantas outras estrelas, que existirão só mesmo na forma do seu nada, do manto negro.
Sofro como Nina, ai de mim.
Publicado; janeiro 27, 2010 Filed under: Ai de nós, ego, música Leave a comment »A psicologia da classe média é mesmo digna de estudo: pois que comprei uma LCD aqui pra minha casa paulista e estou todo feliz com ela. Se pudesse, ficava, assim, o dia todo só por conta de ver os canais-que-sempre-tive, como se a programação tivesse se alterado só porque a tv é novinha. O cheiro de plástico novo é dos melhores prazeres produzidos pela civilização.
O que eu queria dizer: é que por causa da LCD comprei um box com DVDs da Nina e da Ella Fitzgerald. Na verdade, o que eu queria mesmo é ter em casa o vídeo da Nina cantando “Feelings”. O que mais me comove nessa interpretação é a briga dela com a letra da canção. Ela diz: “que droga ter que cantar uma música como essa…eu não acredito nas condições que produziram essa letra”.É de uma grandeza sem tamanho. Talvez por isso Nina me comova tanto: porque não canta apenas palavras, mas elabora todo um ritual de respeito e entendimento do que está proferindo.
Como ela, sofro por ter que cantar uma letra como “Feelings”, sofro por ter que reconhecer que essa música me explica inexoravelmente. Ai de mim.
O Brasil está otimista, ai de nós.
Publicado; dezembro 28, 2009 Filed under: Ai de nós, brasil, Política Leave a comment »
O ano termina com um clima de euforia que me dá preguiça. Que o presidente saia por aí, irresponsavelmente, pregando o mito do desenvolvimentismo, tudo bem. Afinal, a popularidade dele é resultado exatamente de um misticismo ingênuo. Que as estatais (Petrobrás e BB, sobretudo) anunciem em seus (custosos) comerciais que estamos vivendo em um “novo país”, tudo bem. Afinal, essas empresas foram sequestradas pela gangue sindical responsável pela sustentação financeira do lulismo.
Triste é ver as empresas privadas também caírem na turma do oba!, ao invés de ficar na turma do epa!. Pois hoje vi a mesma frase em dois comerciais que se seguiram no horário nobre. O mote “o Brasil deixou de ser o país do futuro, para ser o país do agora”, proclamado no comercial do BB, foi repetido quase literalmente trinta segundos depois, na campanha da Vale.
O que me aporrinha é saber que quando estamos entregues ao mito, fiscalizamos menos, somos menos exigentes. Ao contrário, se há virtude na descrença é a de que o cético é menos facilmente enganado.
notas
Publicado; dezembro 22, 2009 Filed under: Ai de nós, Política | Tags: José Serra 2 Comments »- Agora que o Aécio desistiu de disputar a presidência, dá vergonha ver o Serra em cima do muro. Esperava mais do pré-candidato que, supostamente, simbolizaria um ponto final no lulo-populismo. O PSDB mostra, dessa forma, o que sempre foi, um partido do “deixa disso”, do late mas não morde. Repetem o erro de 2005, quando acharam que era melhor deixar o presidente “sangrar”, por causa do mensalão, até a eleição, quando, então, o derrotariam.
- Lamentável ver que a eleição do ano que vem caminha para um embate entre uma ilustre desconhecida candidata sem personalidade política e um velho cacique sem proposta oposicionista.
- Por isso, concordo com as palavras do Aécio, quando afirma que as prévias no PSDB, pelo menos, serviriam para colocar em debate as propostas de governo dos dois pré-candidatos. Talvez elas não fossem tão diferentes assim, mas pelo menos saberíamos quais eram. Com o fim da pré-candidatura de Aécio, o pleito de 2010 perde ideias.
- Dilma é apenas um fantoche político da gangue sindical que há sete anos institucionalizou a luta de classes. Serra é apenas um fantasma sem proposta e sem coragem para erradicar o lulo-populismo. Ai de nós.
O biscoito modernizou, ai de nós.
Publicado; dezembro 16, 2009 Filed under: Ai de nós, música Leave a comment »Essa semana, li ou ouvi em algum lugar uma frase que define Maribeth: “Quando ela canta a palavra ‘janela’ você sabe se a tal janela está fechada ou aberta”. Achei perfeita.
Mas a tristeza da minha vida foi saber, também, que a embalagem do Piraquê, feita pela Lygia Pape na década de 60, foi trocada por outras mais modernas e atuais.
“Quem estiver bebendo, bebe um pouquinho menos e fala um pouquinho mais baixo”
Publicado; dezembro 10, 2009 Filed under: Ai de nós, música | Tags: Maria Bethânia 1 Comment »Acho engraçado certos comentários do nosso jornalismo de cultura. Sobretudo, quando criam polêmicas inexistentes. Na Folha de hoje, por exemplo, na capa da Ilustrada, está estampado em letras gigantescas:
Cultura de Cassino – Nova temporada de shows de Maria Bethânia em teatro levanta debate sobre grandiloquentes casas de shows brasileiras.
Inocentemente, achei que veria ali uma reportagem e artigos sobre alguma coisa que dizia respeito aos shows de Maribeth. A despeito dese texto confuso, julguei que, ao colocarem no título ”Cultura de” e “debate” no lead, queriam sugerir que vinha pela frente algo relevante.
Que nada: a reportagem estava mesmo procurando pelo em ovo. O “debate” era sobre o fato de Maribeth ter optado fazer sua temporada paulistana no teatro Abril, e não em uma casa de shows, em que o público pode sentar-se à mesa e pedir comidas e bebidas, enquanto escuta o(a) cantora(a) dando seus rodopios pelo palco. A grande polêmica era se o serviço de bar atrapalha ou não o show. Ah, mas isso é duma falta do que escrever, que não tem tamanho. Alguém ainda leva a sério a opinião de alguém que vai a um show pra comer batata frita e beber uísque?
Ô gente, com tanto assunto tão mais urgente pra ser debatido, me gastam duas páginas inteiras uma polêmica dessa…
Ai, de nós.
Um mundo sem literatura, ai de nós!
Publicado; outubro 15, 2009 Filed under: Ai de nós, Literatura | Tags: Literatura, Vargas Llosa 2 Comments »
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Mário Vargas Llosa
(…)
A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com o modo como vivem a vida. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa é um modo astuto que inventamos para nos mitigar pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a sermos sempre os mesmos, enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.
Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão literária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real.
Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão literária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real.
Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão literária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real.
Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão literária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real.
Texto completo.
A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com o modo como vivem a vida. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa é um modo astuto que inventamos para nos mitigar pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a sermos sempre os mesmos, enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.
O samba ficou clean, ai de nós!
Publicado; setembro 17, 2009 Filed under: Ai de nós, artes | Tags: Samba 1 Comment »
Eu tinha comentado aqui, há algum tempo, sobre a minha falta de paciência com o Samba Cool, esse jeito marisamonteano adotado por cantoras como Ana Cañas, Roberta Sá, Mariana Aydar. Pois continuo sem paciência para elas. A menina-da-voz-bonita da última semana é a Tiê. Ela já virou febrezinha no Last.fm. Não conheço nada sobre ela, mas há um esforcinho dos internautas em torná-la conhecida, pelo menos entre os ouvintes das marisamontistas.
O que eu queria dizer: não é que eu não goste dessa gente. Meu problema com o samba cool não se resume ao gostar ou não. Acho que é praticamente impossível não se simpatizar por uma voz delicada, cantando canções com melodias que não incomodam o ouvido. Eu ouço essas meninas, sim. Mas me parece tudo muito limpo, e é isso que me exaspera. Acho que falta um pouco mais de barulho nesse samba. Como diria o Carlinhos Lyra:
cadê o tal gingado que mexe com a gente?
e o rebolado cadê?, não tem maiscadê o tal gingado que mexe com a gente?
cadê o tal gingado que mexe com a gente?
foi se misturando se modernizando, e se perdeue o rebolado cadê?, não tem maiscadê o tal gingado que mexe com a gente?






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