Inebriante

Tenho vontade de tirar a roupa e pedir pra Diana Krall sussurrar no meu ouvido “este seu olhar…”


Fiel à vida

 

Não sei se me enganei, mas escutei pela televisão da minha mãe que vai começar uma novela na Globo com o tema de Nana, “Sem Poupar coração”. Esse título é tudo que se precisa de dizer na vida, como eu havia escrito aqui.

Lendo o Cem anos de solidão ontem, encontrei o Melquíades, um cigano que se cansou da morte e ressuscitou:

 

“Había estado en la muerte, en efecto, pero había regresado porque no pudo suportar la soledad. Repudiado por su tribo, desprovisto de toda faculdad sobrenatural como castigo por su fidelidad a la vida, decidió refugiarse en aquel rincón del mundo todavía no descubierto por la muerte.”

 

Fiquei pensando que quando eu morrer, também voltarei para buscar todos os instantes, pois sou muito fiel à vida e não gosto que falem mal dela, não.

 


“Esse caso tá meio mal contado”

Aqui no Brasil as coisas seguem tão interessantes que não me canso de ouvir o novo cd (pop) do Milton. Adoro quando ele canta todo afetado “só goxxto de voxxê”.

A grande preocupação da minha vida, por enquanto, é descobrir como extermino esses pernilongos que insistem em ficar no meu quarto.

E seguindo a sugestão do Samuel, eu ando fazendo pesquisas seríssimas no Google Ngram para descobrir quando algumas palavras começaram a dominar o cosmo de um modo inelutável.

 


“Todo cais é uma saudade de pedra”

Eu tinha tanto medo de dar errado, que nem falei aqui. Estou indo embora de Campinas e tenho vontade tremenda de me pentear no Brasil, por isso. Há muito não me sinto assim, realmente mudando. Desde 2006, quando eu vim pra cá decidido a ir pela primeira vez a uma boate gay (“ninguém me conhece lá mesmo!”). Ai de mim.


O meu sorriso é por consolação

Fui consultar uma médica ontem para ver se descubro o que é essa coisa que sinto dentro de mim e que não quer passar. Ela tirou minha pressão e falou cento e trinta por oitenta e sete, eu perguntei, isso é bom ou ruim? É normal, ela disse, e completou: mas será que o normal é o bom?


Sendo que eu não mereço isso…

A tristeza da vida da gente é que chega uma hora em que você é obrigado a fazer auto-escola, com 45 inevitáveis horas de aulas teóricas.

Pois meu professor disse, hoje, que a Semana de Arte Moderna tinha como objetivo libertar a mulher da opressão machista desse mundo. E, por aí, mede-se o nível de relações que ele tenta estabelecer, ai de mim. Depois, mostrou um vídeo mal copiado do youtube, com fotos de acidentes de trânsito, intercaladas com quadros cubistas – reproduzidos em excelente qualidade -, ao som de Charlie Brown Jr.

Mas o que mais me fascina são os comentários sociológicos e antropológicos dele, sempre dispostos a traçar o perfil do brasileiro: “já viu, né, brasileiro sempre quer dar um jeitinho” ou “o brasileiro prefere chegar mais cedo em casa pra ver a novela do que (sic) esperar o sinal abrir”. E ele ainda arremata seus parágrafos, com versículos bíblicos: “e como diz papai-do-céu (essa expressão inexoravelmente introduz os versículos e na aula de hoje foi repetida 6 vezes)E saía Davi aonde quer que Saul o enviasse e conduzia-se com prudência”….


“A saudade é pior do que o esquecimento”


Sou mais interessante do que o que aí está posto

 

Eu ia escrever sobre uma crônica de Antônio de Alcântara Machado, escrita no final da década de 1920, que é de uma atualidade terrível, no que diz respeito à situação política nacional:

 

Fulano quer ser legítimo representante do povo brasileiro? Quer mesmo?(…) Não há coisa mais carnavalesca do que a nossa política. Se o cidadão se fantasia de eleitor independente para votar, o cavalheiro por ele eleito se fantasia de representante do povo para legislar. Um e outro não passam de mascarados. Um e outro estão pouco ligando para as suas nobilitantes funções cívicas. No fundo tudo é pândega.

 

Também pensei em transcrever, para comentar o triste fato daqueles  Chicos Buarques que fazem abaixo assinado para apoiar uma candidata, mas não se lembram de fazê-lo quando há casos graves de quebra de sigilo, quando Francenildos são acossados pelo partidão, também pensei em transcrever uma crônica atualíssima do Mário de Andrade, que começa assim: “O vício da gente se esquecer das suas próprias faculdades pensantes é bastante comum. Mesmo entre os que pensam”.

Mas a minha decepção pelo debate(?) obscurantista, neo-religioso, que hoje se trava entre Serra e Dilma é tão grande que prefiro escrever sobre mim. Sou mais interessante do que a eleição, e sei muito bem meu tamanho. Nem pra mais, nem pra menos. O que eu queria dizer: é que a felicidade maior da minha vida é ter chegado a um ponto em que minha casa parece não ter mais por onde enfiar livro e papel.


As vezes, os sentimentos se materializam.

Vejam o que eu vi: a foto com a legenda:

“Pedestre olha fachada do cine Gemini, na av. Paulista, em SP, que vai fechar no domingo após 35 anos de funcionamento”

Me lembrei de quando fui (uma só vez),  achei tão lindo eles dando doce de abóbora na entrada.


O que tenho aprendido muito

Falar é prata, calar é ouro.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.