Quem tem alma não tem calma

O novo CD de Bethânia é como os outros: levo tempo para gostar de todas as músicas. É que “Bethânia a gente não discute obedece”. Mas tem umas músicas… A letra de “Vive” me diz tanto…

 

Há também trechos do Pessoa que me derrubam!

‎”Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem olhei 
De tanto ser, só tenho alma. 
quem tem alma não tem calma”


Estou lendo A trégua, de Mario Benedetti, enquanto espero o ok da minha orientadora sobre o texto da minha qualificação. O livro é um romance diário, bom de se ler por causa do ótimo bom humor. E tem coisa melhor do que ADORAR um livro que se comprou só porque ele custava nove e noventa?

Jantar na casa de Vignale. O ambiente  é asfixiante, escuro, carregado. Na sala de estar há duas poltronas, de um indefinido estilo internacional, que na realidade parecem dois anões peludos. Afundei numa delas. Do assento subia um calor que chegava até o peito. Veio me receber uma cachorrinha desbotada, com cara de solteirona. Olhou-me sem me farejar, depois ergueu uma das patas e cometeu o clássico delito de lesa-tapete. A manha ficou ali, sobre uma cabeça de pavão, que era a vedete naquele desenho algo assombroso. Mas havia tantas manchas no tapete que, afinal, alguém podia chegar a crer que elas faziam parte da decoração.

Ah, e essa história de futuro que ninguém sabe mesmo o que é, hein, hein?


Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer (2)

Estou lendo “Campo Geral”, do Rosa. E que delícia o nome dos cachorros: Gibão, Zerró, Julim. Caráter, Catita, Soprado, Funesto e a Pingo-de-Ouro.

Me veio o sítio do meu avô, onde tinha um cachorro chamado Cojaque.


E quando escreveremos “faisão”?

 

Achei um trecho de um romance gaúcho muito fiel ao Brasil de hoje:

Essa serpente do paraíso brasileiro é a combinação de pragmatismo e conformismo, na corrupção e no rancor diante do povo miúdo, na subserviência aos graúdos e na brutalidade com os marginais, tudo encimado pela insensibilidade a qualquer manifestação do espírito que não tenha um valor material. O Brasil imaginado está longe do país real, que ainda está precisando entender o que o retém, o paralisa e o impede de seguir seu rumo. (Breviário das Terras do Brasil, Luiz Antonio de Assis Brasil).

 

Muito coerente, pois por onde se olha só se vê a insensibilidade por qualquer manifestação do espírito que não tenha um valor material. Falta-nos poesia e Maribeth sabe muito bem disso.

Enquanto isso eu preparo o Melô da Ortografia (vejam só se não falta poesia!), pra ensinar meus alunos que depois de ditongos, se o fonema for z, a gente escreve com s, como em “coisa”, “náusea” e “faisão”. Ai de mim.


“A democracia é como uma santa de altar, de quem já não se esperam milagres”

Até hoje, eu nunca vi alguém fazer símiles tão boas quanto o Saramago. Acho que essa é a herança literária dele.

 


Não faz nem 4 meses que estou longe dela, e ai! que morro de saudade da academia! E da minha universidade. Ainda mais com minha orientadora me mandando um e-mail, para eu pedir bolsa. É uma tristeza na vida da gente essa história de não poder viver para a literatura e ter que viver dela.


Divulgando

O link para um artigo meu, que saiu publicado há uns dias no caderno Cultura, do jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul.

Apesar de tudo e de todos, ele quer voltar.”


Quantas vezes eu já não tive a vontade de me refugiar num bar e pronunciar a palavra desespero

Um dos problemas de estudar literatura e fazer dela sua profissão é que se acaba lendo muitas coisas que, a rigor, não precisariam ser lidas. E isso talvez aconteça mais vezes quando se decide estudar a literatura contemporânea: como há uma enormidade de pessoas escrevendo atualmente, como em nenhum outro momento da história, a lista dos autores e textos que se tem pra ler é soberba. Não creio que a literatura contemporânea seja pior ou melhor do que a de épocas passadas. Mas ao se ler muitos autores, mesmo quando escolhemos o filtro (duvidoso) dos que já foram premiados e reconhecidos, termina-se por encontrar obras medianas, ou mesmo sem relevãncia.

Talvez por isso os grandes impactos, as grandes experiências estéticas sejam tão raras e ocorram por acaso. Salvo engano, em 2010, por exemplo, o único texto, de um autor até então inédito para mim, que fez meus olhos realmente brilharem foi o 2666, do Roberto Bolaño. Não que tenha lido muitos livros ruins. Ao contrário: li coisas boas. Mas o Bolaño me deu a impressão de uma maturidade literária insuspeitada, até então. E acho que a experiência estética, pelo menos para mim, decorre exatamente dessa impressão.

O acaso, como eu disse, pode sim produzir grandes descobertas literárias. Há alguns dias, entrei em uma das poucas livrarias de Belo Horizonte – há por aqui muitas lojas de livros, mas raríssimas livrarias -, e descobri uma promoção da CosacNaify. Comprei A viagem vertical, do espanhol Enrique Vila-Matas. O livro é acachapante – desde o primeiro parágrafo. Tenho muito medo de obras assim, pois, acaba-se a leitura e permanecem os ecos que vão interferindo no diário da gente. Eu que já tenho me sentido muito distante do mundo que aí está posto, fico um pouco preocupado quando aparece um livro  - ou uma música – que, por conta de algum mecanismo indecifrável, retira as certezas e dilata tempo e espaço. A comparação é imperfeita, como só podem ser as comparações, mas me parecem muito semelhantes os efeitos de uma obra assim e da maconha. No fim, fica a sensação de estar conversando com as pessoas, lutando para parecer normal, lutando para voltar a um registro cotidiano, pragmático, prático. Mas nem sempre dá certo. É um estranhamento muito grande.  Ainda mais quando os mandarins do mundo parecem ser invencíveis, quando já se tem a certeza de que não há mesmo espaço para poetas na cidade.

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Abaixo, o primeiro período de A viagem vertical.

 

“Quando a noite caiu em pleno dia sobre Barcelona e o temporal de chuva e vento se desencadeou, Federico Mayol, que há uma semana estava à beira do abismo e naquela tarde vagabundeava, não teve outro remédio além de refugiar-se num bar da praça Letamendi, pronunciando a palavra desespero.”

 


Fiel à vida

 

Não sei se me enganei, mas escutei pela televisão da minha mãe que vai começar uma novela na Globo com o tema de Nana, “Sem Poupar coração”. Esse título é tudo que se precisa de dizer na vida, como eu havia escrito aqui.

Lendo o Cem anos de solidão ontem, encontrei o Melquíades, um cigano que se cansou da morte e ressuscitou:

 

“Había estado en la muerte, en efecto, pero había regresado porque no pudo suportar la soledad. Repudiado por su tribo, desprovisto de toda faculdad sobrenatural como castigo por su fidelidad a la vida, decidió refugiarse en aquel rincón del mundo todavía no descubierto por la muerte.”

 

Fiquei pensando que quando eu morrer, também voltarei para buscar todos os instantes, pois sou muito fiel à vida e não gosto que falem mal dela, não.

 


Meu peito de menino

Esse texto do Raduan é tão sacro, tão o que se pode chamar de belo,  que às vezes eu tenho vontade de entrar por ele, como Selton Mello, “feito um balão”.

 


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