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  Meu único desejo, dentre todos que tenho pra 2010, é conhecer a Marambaia, quando for ao Rio em Janeiro, cantando “Querida”, do Tom. E rolando na areia de tanto amor.

 

E hoje, logo cedo, li uma frase de Martin Heidegger e ainda não entendi como não tive uma síncope, por ela explicar tanto o meu estar no mundo:

 

 “permanecer pequeno diante do terror secreto da presença de tudo que é inicial”.

 

  Isso é um poema inteiro. De uma compreensão…

 

Fernanda Drummond cravou essa semana o achado:

“não me priva dos teus olhos absurdos.”

E não precisa de mais nada, está tudo dito ali. Não precisa nem mesmo dela me contar que eram olhos de um azul impossível. A absurdez perde um pouco do efeito, quando associada à beleza da cor dos olhos. Prefiro deixar o “absurdo” com a vaguidão do verso. Repito: um achado!
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E meus olhos andam mal acostumados. Era pra eu estar em Belo Horizonte, agora. Mas vejam só como são as coisas: eu que nunca olho os emails de confirmação, nem os spams de web-checkin, resolvi ontem à noite, com a mala já arrumada, olhar. Sabe-se lá o porquê. E não é que comprei invertido? Ao invés de marcar Campinas-BH, selecionei de BH para Campinas. Resultado: tive que remarcar, pagando taxas e tarifas mais caras, e só viajo semana que vem.
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O que mais importa: é o amor outra vez.

Oswald de Andrade nunca pareceu interessante para mim. Por causa de um preconceito. É que eu, como se existisse uma rivalidade excludente, achava o Mário e o Drummond os mais interessantes dos nossos Andrades-modernistas. Acho que talvez a preferência se deva à presença de um certo sentimento íntimo na poesia desses dois em contraposição ao humorismo racional do Oswald. Ou talvez porque minha apreciação estética se funda na dialética entre a minha posição ideológica reacionária e uma aceitação de que a boa arte é inevitavelmente revolucionária – não consigo discordar de Chklovski quando ele plasma o efeito estético como um “estranhamento”. No entanto, a literatura oswaldiana me incomodava por essa vontade a tudo custo de parecer revolucionária. Explico, Oswald se afigurava para mim, como um autor exageradamente modernista, no sentido de aplicação de cacoetes para envidenciar-se como moderno. Daí os trocadilhos insustentáveis:

  “na sala violeta de Monsieur Violet” ( Memórias sentimentais de João Miramar).

 “a Serra dos Órgãos serrava” ( idem).

 “Carlos Florêncio – grande poeta inédito falecido na flor da idade.” ( Serafim Ponte Grande).

 Isso para não citar uma profusão de neologismos idiotas. Esses procedimentos tornam os textos do Oswald datados, muito presos ao momento daquele “futurismo ciclóplico”, que autor já considerava superado no seu Manifesto Pau Brasil. E é preciso apontar um outro ponto do meu não interesse por Oswald: visto de longe, ele me parecia um cantor de uma nota só, com uma excassez de tópicas que não o deixava ir além da dessacralização (da arte, da pátria) e da sátira à nossa elite caipira. Por oposição, Mário, graças ao sentimento íntimo de que falei mais acima, sempre me pareceu produzir uma literatura menos fugaz e, por isso mesmo, mais honesta: “Seria insincero comigo mesmo, se mais que a minha expressão, procurasse a orientação de escolas”, escreve ele em Carta a Manuel Bandeira (23/abr/1923). Não há como negar a grandeza de alguém que escreve algo como “O poeta come amendoim”, poema muito mais moderno do que modernista.

Mas como literatura pode até ser comparada, mas não é competição, estou tendo a oportunidade de descobrir o Oswald, deixando um pouco de lado meus preconceitos e as minhas visadas gerais para partir pro corpo a corpo com o texto oswaldiano. Tenho que reconhecer que há muito pouco de ingenuidade num livro como o Miramar . Se há momentos extremamente desnecessários, como já apontei, o romance é sobretudo síntese e economia, como no anúncio da morte da mãe do protagonista que é limitado a uma locução adjetiva:

“sentaram-me num automóvel de pêsames”

Há também neologismos bem sucedidos:

“E o sertão para lá eldorava sempres e liberdades.”

 Aqui, Oswald atinge o máximo do seu procedimento neológico – não se trata da técnica pela técnica, mas da neologia associada ao lirismo, ao sentimento íntimo, que eu julgava ausente da sua poética. Boa escola de poesia para um Guimarães Rosa ou, talvez mais próximo pelo gosto aforismático, para um Manoel de Barros.

 Até mesmo no humorismo oswaldiano tenho achado ótimos momentos de pura sensibilidade, sem que isso prejudique o fundo racional da sátira:

 “A escrava pegou a filhinha nascida
Nas costas
E se atirou no Paraíba
Para que a criança não fosse maltratada”

 E a capacidade ímpar na nossa literatura de trabalhar o título, deslocando-o do contexto apropriado. Como nos famosos ready-mades linguisticos de Pau Brasil, nos quais, através da titulação, o autor subverte o texto citado (geralmente da literatura dos viajantes expansionistas). Impagável a conhecida apropriação da Carta de Caminha, por meio da qual Oswald expõe a posição pilantra dos nossos “descobridores”. Nossas índias dessacralizam-se e se tornam prostitutas da gare, esperando novos clientes.

 as meninas da gare

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabeçalhos mui pretos pelas espadoas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito olharmos
Não tinhamos nenhuma vergonha.

 Eis aí o ponto alto oswaldiano, cume atingido só pelos melhores artistas de vanguarda: emprego de um procedimento ultra-modernista, i.e., a apropriação quase Duchampiana de um objeto (trecho da Carta), ressignificando-o pelo título, sem destituir a sátira do sentimento íntimo que nos faz sentir compaixão por essas indiazinhas depiladas.

 

Mas não tenho vontade de representar outras pessoas. Quero ser outras pessoas

"Mas não tenho vontade de representar outras pessoas. Quero ser outras pessoas

Há muito tempo que a piauí não vem tão boa, como a desse mês. Parece até que guardaram os textos para essa edição, que é comemorativa do terceiro aniversário – aliás, é uma maravilha ver que a piauí completa três anos. Assim como esse blog, achei que ela não fosse durar.

Pois além do texto do Vargas Llosa que eu comentei recentemente, há uma reportagem do David Grann , sobre um francês, Frédéric Bourdin, conhecido como “O camaleão”, que assume várias identidades. Bourdin, de 35 anos, já foi preso várias vezes depois de enganar um batalhão de gente, se passando por adolescentes de 15, 16 anos. O caso mais inverossímil é aquele em que Bourdin, depois de ser preso, recebeu um últimato de uma juiza: ele tinha 24 horas para provar que era um adolescente e não Frédéric Bourdin. E assim ele fez: disse que era um garoto norte-americano que havia sido sequestrado pouco tempo antes, no Texas. Acreditaram nele. Não só os juizes, como a família do garoto sequestrado. Inclusive a mãe. Levaram-no para casa. Pouco importava que ele não falasse o inglês texano, ou que tivesse olhos castanhos, e não azuis como os do menino desaparecido. A família queria acreditar que seu garoto estava de volta. E essa crença foi tudo.

O mais surpreendente dessa história é que ela é um reprodução praticamente literal de um conto de Borges, “El impostor inverossímil Tom Castro”, incluído na Historia Universal de la infamia”. No texto borgiano, um impostor, Tom Castro, também se passa por um filho de uma senhora rica, desaparecido após um naufrágio. Como a mãe não acreditava na morte do filho, ela logo reconheceu no falsário o seu garoto. E pouco importava que eles não fossem nem um pouco parecidos. Afinal, se Tom Castro fosse um impostor, trataria logo de imitar o jovem desaparecido para enganar a família: “Sus partidarios no cesaban de repetir que no era un impostor, ya que de haberlo sido hubiera procurado remedar los retratos juveniles de su modelo.”

O que eu queria dizer: que toda a literatura de Borges segue a máxima mallarmaica: “tudo existe para acabar num livro”. Borges extendeu a ideia, formulando a hipótese de que talvez o mundo seja um livro, de que vivamos numa grande biblioteca. Ora, a história de Bourdin é a metáfora da metáfora. Não é a ficção da realidade, pois de fato ele existe. É a realidade como ficção.

Na piauí desse mês há um texto de Vargas Llosa que é quase um manifesto contra o pouco prestígio da literatura em nosso tempo. Não há muito de novidade no texto, só o já conhecido resmungo contra um mundo em que há cada vez menos espaço para o livro impresso. Lembro de ter lido alguém, acho que o Deleuze, comentando que chegamos a um tempo em que ler um romance é o mesmo que ouvir uma música: não é mais necessário dedicar-se à leitura, mas tolera-se que ela seja feita com certo grau de distração. Ai, de nós.

Pois dirão os pós-modernos que o manifesto vargasllosiano é conservador, na medida em que elege os cânones como sinônimo de Literatura e esta como ideal de intelectualidade. Ou ainda: que se trata de uma visão idealista do objeto literário. Mas que se danem as pessoas-com-visão-crítica. A vida tem me mostrado o qual “incivilizadas, bárbaras, pobres de palavra e [sobretudo] órfãs de sensibilidade” são as pessoas que não leem.

Minha mãe costuma me perguntar o que faço quando não tenho respostas para as coisas, se penso em deus. Talvez a literatura me seja isso, a figuração mais primitiva que alguém pode ter dela: uma espécie de busca de respostas. Por isso, incomoda-me muitíssimo a insensibilidade a um texto. Ou por outra: as pessoas não são amigas o suficiente porque talvez nunca tenham lido Camus ou Cervantes, ou a estória de Lélio e Lina. Não amam, de fato, porque desconhecem Riobaldo e Diadorim. Vi de relance essa semana uma revista que trazia na capa a foto de Paulo de Coelho segurando o Kindle. Letras gigantescas diziam mais o menos assim: “O último livro que você vai comprar. Chega ao Brasil o aparelho que vai substituir os livros de papel. Espanta-me a falta de interesse pelo livro físico. Espanta-me quem consegue passar sem estar lendo um livro. Espanta-me a falta de amor. Só uma pessoa plenamente órfã de sensibilidade pode desprezar o amor táctil proporcionado por um livro, como dizia o Caetano.

——

Em defesa do romance
Mário Vargas Llosa

Um casal que leu Proust usufrui mais do amor e do sexo que os analfabetos semi-idiotizados pela tevê.

(…)


De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exa-gero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão. Em um mundo iletrado, o amor e a fruição não poderiam ser diferenciados daqueles que satisfazem os animais, não iriam além da mera satisfação dos instintos elementares: copular e devorar.
(…)


A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com o modo como vivem a vida. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa é um modo astuto que inventamos para nos mitigar pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a sermos sempre os mesmos, enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.


Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão literária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real.

Texto completo.

Hoje eu estava indo pro aeroporto pra voltar pra Campinas, quando vi, na avenida Antônio Carlos, umas das vias mais sujas e rabiscadas de BH, escritos os seguintes versos:

Verdes serras

antes delas

ipês de pétalas amarelas.

(Não me recordo se a versificação era exatamente essa, mas eram essas as palavras). Fiquei em estado de graça por causa dos versos, que me pareceram sintaticamente muito sofiscados e, sobretudo, pela beleza da imagem que eles sucitam. Imagem que, aliás, era um refrigério naquela arquitetura tão maltratada. Sem falar na musicalidade que toma a gente e suplica a oralização – nem mesmo a sintaxe retorcida afeta a cadência dos versos, parece-me que inclusive a complementa. Me encanta também a não realização do óbvio: o ambiente evocado no primeiro verso (“verdes serras”), ao contrário do que se espera, não é seguido de um canto de louvor, mas de uma adversativa que funde tempo e espaço (“antes delas”) e obriga uma releitura das palavras iniciais. A imagem do último verso já não é mais a de um cenário geográfico (apenas), mas de um momento(!) que antecedeu às verdes serras: ipês-metáforas, pétalas-minutos, amarelos-dias…

Desconheço se se trata de uma estrofe de algum poeta “grande”, o que sei é que o google não registra nenhuma entrada com “verdes serras/antes delas”. A julgar pela caligrafia (os versos foram escritos a tinta, bem amadoramente), é provável que tenha sido uma criação de algum desses impagáveis poetas/profetas do lixo e dos viadutos – que me comovem muitíssimo. E já disse aqui que tenho um profundo interesse por esses Gentilezas e Estamiras, não porque são pobres ou socialmente marginalizados, mas sim porque sempre me pareceu que eles habitarem num cosmo extemporâneo ao nosso(?). Mas o que menos importa é a autoria. São versos de alguém que transviu o mundo, como diria o Manoel de B. Alguém que percebeu que tempo e espaço são uma só coisa e é preciso escapar de algum modo a eles. Porque transver o tempo é estar menos só.

Vejam só como são as coisas: não se cansam de repertir por aí, desde sempre (Sérgio Buarque de Holanda), com bastante verdade, que o brasileiro é contrário à regra, que as leis pessoais se sobrepõem à coletividade, que arrefecemos qualquer costume minimamente civilizado.

Pois hoje estava lendo Borges e achei isso:

El argentino, a diferencia de los americanos del Norte y de casi todos los europeos, no se identifica com el Estado. Ello puede atribuirse a la circunstancia de que, en este país, los gobiernos suelen ser pésimos o al hecho general de que el Estado es una inconcebible abstraccion*;lo cierto es que el argentino es un individuo, no un ciudadano.

(*)El estado es impersonal: el argentino sólo concibe una relación personal. Por eso, para él, robar dineros públicos no es un crimen. Compruebo un hecho; no lo justifico o excuso.

O que eu queria dizer: que fiquei duplamente surpreso, primeiro porque não imaginava ler nada de Borges sobre identidade nacional, segundo – e sobretudo – porque a descrição é nitidamente capaz de caracterizar o homem brasileiro. Me parece que essa coincidência torna totalmente dispensável a oposição do Sérgio B. de H. entre luso e espano-colonizados, que ele chama de aventureiros e ladrilhadores, respectivamente. Aliás, a nota borgiana revela que talvez seja um grande embuste metafórico a distinção do brasileiro pela “cordialidade” – que mal lida, é entendida por muitos como sendo um retrato da “simpatia” do homem brasileiro. O homem cordial é exatamente isso: aquele que não vê nada senão pela relação pessoal. O que o texto de Borges talvez nos diga é que nós – brasileiros e argentinos – somos uma só raça: triste, inculta e destinada ao fracasso e à corrupção.

E por falar nas cartas, fiquei horrorizado com uma resposta do Mário ao Drummond:

“Você caiu num estado de religiosidade extática lamentável. Você está vivendo depressa por demais, Carlos Drummond de Andrade, e assim não serve. Você já chegou na decrepitude final sem ter vivido. A história de você é chocha. Uma precariedade lamentável de gestos esboçados, de vontades incondensadas” A isso no geral os abúlicos inteligentes chamam de ‘vida interior’. Desculpe, mas botei nesta frase uma ironia feroz. Vida interior todos têm. Não é inação exterior que dá vida interior mais intensa, não. (19/07/1928)

O horror foi que isso parece um retrato da minha alma quando jovem.

Estou lendo a correspondência entre Mário de A. e Bandeira e entre Mário de A. e o Drummond, entre os anos de 1926 e 28. Achei uma referência a um poema do Pessoa que me disse muito e que lá vai:


Onde pus a esperança, as rosas
Murcharam logo.
Na casa, onde fui habitar,
O jardim, que eu amei por ser
Ali o melhor lugar,
E por quem essa casa amei -
Deserto o achei,
E, quando o tive, sem razão para o ter.

Onde pus a afeição, secou
A fonte logo.
Da floresta, que fui buscar
Por essa fonte ali tecer
Seu canto de rezar -
Quando na sombra penetrei,
Só o lugar achei
Da fonte seca, inútil de se ter.

Para quê, pois, afeição, esperança,
Se perco logo
Que as uso, a causa para as usar,
Se tê-las sabe a não as ter?
Crer ou amar -
Até à raiz, do peito onde alberguei
Tais sonhos e os gozei,
O vento arranque e leve onde quiser
E eu os não possa achar!

Há uma verdade gigantesca nessa metáfora florida da esperança: também eu não sei manter vivo qualquer jardim que me pareça florido. O que torna, de algum modo, inútil o ter. Há mesmo que se pedir (talvez em oração) que sobrevenha uma força natural como o vento para arracancar os sonhos e depositá-los no lugar de não os achar. (Mas que não me seja nunca permitido concordar com a conclusão da última estrofe, que é anti-viniciana, mas que, ao contrário, tenha um resto de terra onde possa nascer nao o mesmo jardim, mas outros).


Falei há algum tempo aqui que não queria ler romance por pelo menos um mês. A promessa durou menos de quinze dias: é que não resisti quando vi o Ensaio sobre a cegueira numa livraria com 50% de desconto. Estava querendo ler o livro desde o lançamento do filme do Fernando Meirelles, ainda mais depois que vi Saramago chorando ao vê-lo. Mas também não queria assistir ao filme sem ler o livro antes.

Sou suspeito para falar porque Saramago é um tipo de literatura que me pertuba bastante: aquela do E se…, E se… Portugal se descolasse da península ibérica, E se…ninguém mais morresse, E se… Jesus não fosse cristão. A hipótese que move Ensaio sobre a cegueira talvez não seja o E se todos ficassem cegos de uma pra outra, mas o E se já formos cegos, mesmo vendo…

Interessa-me nessa literatura-do-E-se a posição daquele que pergunta. Ora, não somos cegos e não há possibilidade de assim ficarmos por meio de uma epidemia. Então, aquele que nos oferece esse futuro hipotético – que é também uma interpretação sobre o presente – deve nos responder o que acontecerá(ria) depois do E se… A resposta, inevitavelmente, trai a própria pergunta na medida em que cataloga o futuro, descrevendo-o. Perguntas e respostas como essas só podem ser respondidas por uma entidade supra-humana, ou qualquer outra que não viva sob o paradigma temporal do presente versus futuro, qualquer outra que viva a Eternidade, porque a Eternidade não tem começo nem fim. Aquele que é capaz de tal pergunta é como o deus que, entendiado, se questiona “E se… eu criasse um universo e o povoasse de seres vivos, alguns deles à minha imagem e semelhança?”. Mas esse deus, no momento exato da pergunta, já vê o universo criado e aquilo que nós, homens, chamamos de futuro, mas que na verdade existe na mesma matéria do passado. (O subjuntivo talvez não exista no idioma da Eternidade).

No caso de Ensaio sobre a cegueira , como aliás nos outros que li de Saramago, o narrador (talvez seja o caso de chamá-lo de autor-implicado) é esse deus que brinca com o E se…, cegando os homens, colocando-os nas mais imbecis e degradantes situações. E, conhecedor da biografia de cada personagem, finge de humano para poder usar o termo “destino”:

“Agora, estando toda gente cega, parece fácil dar por mal empregado o dinheiro que se gastou, afinal há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”.

Ninguém mais sínico do que esse narrador que, depois de ter feito gato e sapato dos seus personagens, fala de “rodeio do destino”, quando na verdade, já havia um projeto kafkiano de jogar os atores nas situações mais vexatórias. E se assim o faz é porque esse narrador-deus (ou autor-implicado, que é mesmo o termo mais correto pra esse deus nos bastidores) é, sobretudo, um divino medroso, ou o diabo evergonhado: não é capaz de assumir a sua prórpria obra. (Aliás, não será esse o fardo de toda entidade divina que não assume que o erro, o pecado e a cegueira são frutos da sua obra “perfeita”? Não será o deus cristão um grande narrador, que envergonhado de ter permitido tantas mazelas, acusa os homens de cegos pecadores?). O narrador-deus de Saramago, no entanto, é tão fracote que não cega a todos, deixa uma única mulher a ver, para que ele não seja obrigado a assumir o risco de ser o único que vê na terra de cegos. (Aqui, o deus cristão parece ser menos frouxo). E a pobre mulher, coitada, que desconhece a existência desse narrador-que-vê, é obrigada a sofrer a angústia de ter olhos quando todos já cegaram. Sofre o mal de se acreditar a única que vê, quando a visão não é mais uma característica humana. Pra quê ver quando não se pode ser visto?, perguntará a mulher várias vezes.

Mas a vantagem(?) de se ler Saramago é que ele, como todo deus, sempre oferece uma Verdade. E é isso que torna seus livros tão cheio de afirmações que valem uma vida:

“Cala-te, disse a mulher do médico, calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida”.

Ou:

“dentro de nós há uma coisa que não tem nome, esta coisa é o que somos”.

Ou:

“A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.

Quem me dera poder dizer tudo com lágrimas e não me cegar nunca por causa da falta de fé.

O que eu estou lendo

Gramáticas da criação, George Steiner

O compromisso, Herta Müller

O complexo de Portnoy, Philip Roth

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