E eu de olho fechado!
Publicado; dezembro 11, 2010 Filed under: Literatura 1 Comment »A constatação do óbvio: eu ligo a tv aberta neste final de tarde de sábado e lá está o lixo do lixo, na Globo um filme com um gordo negro americano em um banheiro de bar de estrada defecando, em outro canal o doctor Rey vendendo um medicamento com fibras milagrosas que capturam todas as gorduras do cosmos, mais abaixo uma criança de três anos histérica cantando um hino de louvou ao senhor Jesus Cristo, composto pela Jaiane(!) e que incentiva a frequência à igreja – “criança esperta é aquela que frequenta a escola dominical” -, em outro lugar, um programa indefinido com uns fantoches roxos comandando um quiz, como se não bastasse, ainda existe uma mulher oferecendo R$3 mil reais para quem acertasse o nome do país que poderia ser formado com as letras embaralhadas na tela.
Mas nem tudo está perdido: passo um canal e vejo uma adolescente num sofá assistindo a uma entrevista de Clarice (sem saber quem é Clarice) na qual ela diz que um professor de literatura havia lhe dito que leu G.H. oito vezes e não entendeu nada. O programa era um episódio da série Tudo que é sólido pode derreter, da Cultura, que traz curtas baseados em obras da literatura brasileira. O que eu queria dizer: o ano mal acabou e eu já estou com saudade dos meus alunos e de ler literatura com esse povo.
(E isso aqui ficou muito metalinguístico).
Publicado; novembro 14, 2010 Filed under: Literatura Leave a comment »
“até se a coisa ficasse ainda mais feia não sei de que jeito, mesmo se eu tivesse vamos dizer de tocar na goela hirta do horror, mesmo assim eu sobreviveria a tudo”. (João Gilberto Noll, A céu aberto).
Gullar (I)
Publicado; novembro 4, 2010 Filed under: Literatura Leave a comment »Nesse novo e excepcional Em alguma parte alguma, do Gullar, há de tudo e de tudo se fala, do Universo ao Osso da minha perna. Gostei muito de muita coisa – estou lendo como uma amiga-leitora-do-livro, uma página por dia, uma a cada dois dias, só pra não acabar muito rápido.
Pincei:
Sei, de ler, que o universo
é de tais dimensões
que a própria luz só o atravessa
depois de bilhões e bilhões
de anos, e que nele há
multidões de galáxias e sóis
que talvez já morreram, antes
de chegar sua luz até nós.
Deste modo, é correto dizer
que o céu que ora espio é passado
e que até pode ser que
o universo que vejo já se tenha acabado.
(Achei gracioso, mesmo com seus clichês. O velho leitmotiv da literatura “o homem se confrontando com o universo”, que no poema é dissolvido em chavões “[eu] bem menor que um ínfimo/grão de poeira “, mesmo velho me interessa muito. É a coisa mais importante a ser perguntada. Mas os versos iniciais do poema de Gullar parecem até crônica do Rubem Braga, não são propriamente versos, mas prosa poética espacializada.)
(…)
O fato é que qualquer vasta nuvem
prenhe de sóis já mortos ou futuros
não possui consciência, esse obscuro
fenômeno surgido na Via Láctea
(O tom prosaiso do início cede lugar à poesia, à linguagem não degradada, à metáfora. Bonito toda vida. Mas me chateia um pouco essa euforia toda em torno da consciência. )
Essas reticências matam a gente
Publicado; outubro 29, 2010 Filed under: Literatura Leave a comment »Antonio Candido uma vez escreveu em um ensaio: “Se for como suponho (pode não ser)…”. Acho isso de uma beleza de doer. Tudo é apenas um grande juízo.
Sou mais interessante do que o que aí está posto
Publicado; outubro 20, 2010 Filed under: brasil, ego, Literatura, Política 2 Comments »
Eu ia escrever sobre uma crônica de Antônio de Alcântara Machado, escrita no final da década de 1920, que é de uma atualidade terrível, no que diz respeito à situação política nacional:
Fulano quer ser legítimo representante do povo brasileiro? Quer mesmo?(…) Não há coisa mais carnavalesca do que a nossa política. Se o cidadão se fantasia de eleitor independente para votar, o cavalheiro por ele eleito se fantasia de representante do povo para legislar. Um e outro não passam de mascarados. Um e outro estão pouco ligando para as suas nobilitantes funções cívicas. No fundo tudo é pândega.
Também pensei em transcrever, para comentar o triste fato daqueles Chicos Buarques que fazem abaixo assinado para apoiar uma candidata, mas não se lembram de fazê-lo quando há casos graves de quebra de sigilo, quando Francenildos são acossados pelo partidão, também pensei em transcrever uma crônica atualíssima do Mário de Andrade, que começa assim: “O vício da gente se esquecer das suas próprias faculdades pensantes é bastante comum. Mesmo entre os que pensam”.
Mas a minha decepção pelo debate(?) obscurantista, neo-religioso, que hoje se trava entre Serra e Dilma é tão grande que prefiro escrever sobre mim. Sou mais interessante do que a eleição, e sei muito bem meu tamanho. Nem pra mais, nem pra menos. O que eu queria dizer: é que a felicidade maior da minha vida é ter chegado a um ponto em que minha casa parece não ter mais por onde enfiar livro e papel.
Meus milagres
Publicado; outubro 11, 2010 Filed under: Literatura, música 1 Comment »Olha que eu já ia perdendo a metáfora.
Pois hoje escutando novamente as Lições da Sr. Sophia de M. B. Andresen, escutei Maribeth recitando:
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Eu sempre fui fascinado pelo mar, sempre senti que era impossível isso aí ser uma metáfora, era pra o Mar que a Sr. Andresen falava. Nem pensava nas profundezas da palavra mar. E como que fui atrás de uma leitura: que o mar também é metáfora pra outros mares. Uma alegoria, mar para todas as pessoas (e livros! e músicas…) que eu suponho serem milagres criados só pra mim.
“Interromper isso eu acho uma sacanagem”
Publicado; setembro 10, 2010 Filed under: Literatura Leave a comment »João Gilberto Noll, em entrevista pra Saraiva:
“Eu faço um esforço diário para sair da solidão.”
“Eu não entendo isso que se chama de vida.”
“O melhor de estar vivo é a linguagem. De não precisar ir até a África para buscar um elefante, para mostrar às pessoas com quem você está falando de um elefante. Esse poder simbólico é genial”.
“Não é que eu tenha medo da morte, é que eu quero estar aqui pra ver no que vai dar isso. Interromper isso eu acho uma sacanagem”.
Quando poderei extrair as consequências práticas da minha consciência (ainda tão rudimentar)?
Publicado; setembro 8, 2010 Filed under: Literatura Leave a comment »Há um certo consenso de que quando uma coisa não vai bem, basta eliminá-la.
Acontece que hoje eu estava lendo Auerbach e fui aceitando os comentários dele sobre uma tendência à uniformização da vida humana, um certo “nivelamento” que faz com que o mundo (e a cultura literária) se tornem “cada dia menor e mais pobre em diversidade”. (O que também é um sentimento íntimo meu, quando olho e percebo que um monte de gente – inclusive eu, ai de mim – está muito parecida, muito óbvia, que a nossa alegria, diria Clarice, já está “toda catalogada”).
Foi quando me deparei com algo que me aprisionou, um parágrafo do texto sobre a institucionalização da vida:
Tudo que se transforma em hábito ou instituição é capaz de persistir por muito tempo, até porque mesmo aqueles indivíduos que se dão conta de uma substancial alteração dos pressupostos gerais da vida e a compreendem em seu significado completo não estão necessariamente prontos ou em condições de extrair as consequências práticas dessa sua consciência.
(“Filologia da literatura mundial”. Ensaios de literatura ocidental. Trad. Samuel Titan Jr. e José Marcos M. de Macedo. Ed. 34)
Para além da impossível beleza dessa prosa, o que eu queria perguntar: o que de ruim (mas não só) existe em nós já sob a forma de um hábito, já com o amálgama da institucionalização, que mesmo tendo consciência desse mal (mas não só) não sabemos como renunciá-lo?
Que foi tão nossa, e me deixa tão só
Publicado; agosto 26, 2010 Filed under: Literatura, música 1 Comment »Um amigo me disse que “Pra dizer adeus” é, talvez, a música de que ele mais goste. Por causa dele, pra que sua opinião repleta de sensibilidade não ficasse por aí vagando à espera de um acolhimento, fui ouvir novamente todas as versões que tinha da música. Acabei caindo no disco do Tom e do Edu Lobo, Edu & Tom, que é imperdível. Mas também tocou a faixa “É preciso dizer adeus”. Aí foi covardia ouvir isso:
E essa beleza do amor
Que foi tão nossa
E me deixa tão só
Fui pesquisar. Descobri que os versos são de Vinicius de Moraes. Aí ofende. Agride a minha alma, de tão bonito que é.
Aliás!
Publicado; agosto 22, 2010 Filed under: artes, Literatura 1 Comment »Aliás, eu descobri hoje também que o verso da F. Drummond daria uma bela música de Arnaldo Antunes. Experimente em casa cantar sibilando, com a voz rouca: Não-me-pri-va-dos-teus-o-lhos-ab-sur-do.





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